Suspeitos de disseminação de fake news e conspiração permanecem ativos nas redes sociais em 2026

Recentemente, novos perfis e páginas de influenciadores digitais, que estão sob investigação no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), têm gerado conteúdos virais relacionados ao pleito de 2026. A Agência Pública revelou a presença de dez influenciadores que enfrentam acusações de desinformação ou tentativas de golpe em eleições anteriores e continuam ativos na campanha atual. Embora todos esses indivíduos tenham tido suas contas alvo de ações judiciais, não se sabe se tais decisões ainda estão em vigor, uma vez que os processos permanecem em segredo judicial.

Dentre eles, pelo menos quatro estão foragidos e disseminam informações enganosas a partir do exterior.

Um dos investigados é Leonardo Rodrigues de Jesus, conhecido como “Leo Índio”, primo do candidato à presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, além de Eduardo e Carlos Bolsonaro. Ele está sob investigação por sua participação na tentativa de golpe de Estado prevista para 2026 e teve sua prisão decretada em 2025 após ser localizado na fronteira com a Argentina. Leo também foi implicado em um esquema de rachadinhas no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro (PL) em 2019, onde relatos indicaram que o chefe de gabinete teria custeado seu aluguel.

Residindo em Puerto Iguazú, na Argentina, Leo mantém um perfil no Instagram dedicado à divulgação de vídeos políticos gerados por inteligência artificial. Um exemplo é uma deepfake publicada em 9 de agosto, na qual Lula é retratado recebendo dinheiro de seu filho. Em outra postagem, ele apresentou um vídeo com deepfakes mostrando Renan Santos e outros membros do Movimento Brasil Livre seminus em uma sauna.

Esses conteúdos são compartilhados por uma rede composta por ao menos 31 páginas focadas na produção de material sintético. O Partido dos Trabalhadores (PT) denunciou essa rede ao TSE por ataques direcionados ao presidente Lula (PT). Segundo a denuncia, essa rede conta com mais de 1,4 milhão de seguidores e possui cerca de 23 mil publicações acumulando milhares de visualizações no Instagram. Além disso, a Federação Brasil da Esperança solicitou a remoção das contas e a aplicação de multas por propaganda antecipada e uso inadequado da inteligência artificial. Esse processo está ainda nas etapas iniciais sob a supervisão do ministro Kassio Nunes Marques.

O blogueiro Oswaldo Eustáquio, denunciado por associação criminosa no inquérito sobre a tentativa de golpe que ocorreu em 8 de janeiro de 2023, também colaborou com páginas que produzem conteúdo político através da inteligência artificial enquanto estava foragido na Espanha — país que negou sua extradição em dezembro de 2025.

Ele utiliza o Instagram para publicar conteúdos junto à página “Dona Maria”, uma influenciadora criada com inteligência artificial que veicula vídeos atacando o governo federal e defendendo Jair Bolsonaro (PL). Um dos vídeos afirma erroneamente que o ex-presidente foi o criador do PIX; na realidade, essa ferramenta foi desenvolvida pelo Banco Central.

Em abril deste ano, esse perfil já havia sido alvo de uma ação judicial no TSE por campanha antecipada.

Quando consultado pela reportagem, Oswaldo declarou: “O PIX foi uma iniciativa do Banco Central durante o governo Bolsonaro. Essa é uma verdade incontestável. O perfil Dona Maria possui rótulo indicando ser gerado por IA; criticar esse perfil é querer lutar contra a tecnologia.”

Outro influenciador foragido ativo na propagação de desinformação sobre as eleições brasileiras é Allan dos Santos, que vive nos Estados Unidos e possui um mandado de prisão preventiva emitido pelo STF desde outubro de 2021. Considerado foragido pela Justiça brasileira, teve suas contas bancárias e perfis digitais bloqueados no Brasil. Sua situação envolve diversas investigações, incluindo o inquérito das fake news e das milícias digitais por disseminação de informações falsas e ataques a autoridades. Ele também é acusado do uso ilícito de recursos obtidos através do financiamento coletivo para sustentar uma organização criminosa.

Apesar disso, Allan conseguiu criar novas contas nas redes sociais onde continua a espalhar desinformação sobre o processo eleitoral brasileiro. Recentemente, ele fez alegações sobre uma suposta interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras e mencionou até mesmo ações militares contra instituições do país. Em um post datado de 13 de julho ele escreveu: “Va logo, Trump. Pegue o Lula!”, acompanhado por uma montagem mostrando o presidente brasileiro vendado e vestido com um moletom cinza — alusão à imagem da prisão do venezuelano Nicolás Maduro.

No ano passado, ele se uniu ao igualmente foragido Alexandre Ramagem — ex-chefe da Abin durante o governo Bolsonaro condenado a 16 anos pelos crimes relacionados à organização criminosa armada — para realizar transmissões diárias no canal TimeLine, associado à Allan.

Os investigados frequentemente propagaram desinformação relacionada ao processo eleitoral brasileiro; entre essas informações falsas estão sustentadas alegações vinculando as eleições nacionais à empresa Smartmatic, acusada anteriormente na Venezuela. Em um tuíte publicado em 16 de junho, Allan afirmou incorretamente que as urnas eletrônicas seriam “inauditáveis”. Na realidade, esses equipamentos passam por várias auditorias antes e depois das eleições. No dia 10 do mesmo mês ele compartilhou um vídeo antigo onde Jair Bolsonaro insinua que Lula só vence as eleições devido às urnas eletrônicas implicando fraude.

Yasmin Curzi, professora e especialista em direito digital da FGV Rio, explica que a localização desses influenciadores fora do Brasil pode dificultar as ações judiciais brasileiras quanto aos conteúdos publicados nas redes sociais. “A eficácia das decisões depende da cooperação internacional”, esclarece.

Conteúdos persistem também em território nacional

Mesmo dentro do Brasil existem outros influenciadores que já foram alvo das decisões do STF e TSE por disseminar desinformação contra o Estado Democrático que continuam ativos na campanha eleitoral deste ano.

Além disso, Fernando Lisboa da Conceição — youtuber conhecido como Vlog do Lisboa — foi oficialmente registrado como candidato a deputado estadual pelo PL paulista. Em seus canais nas redes sociais registradas junto ao TSE ele veicula vídeos insinuando invasões ao Brasil e sugere a prisão do presidente Lula pelo governo dos Estados Unidos.

Lisboa já havia concorrido nas eleições passadas como candidato a deputado federal pelo PL paulista. Em reportagens anteriores foi revelado que ele recebeu R$200 mil em verbas públicas para campanhas provenientes do partido para impulsionar anúncios e gerenciar suas redes sociais onde divulgava informações enganosas.

Neste ano ele repercutiu declarações feitas por políticos norte-americanos sobre temas correlacionados ao Brasil e suas eleições questionando inclusive a segurança das urnas eletrônicas. No final do último ano chegou até mesmo a propor proibições aos equipamentos eleitorais nos Estados Unidos. Em julho passado divulgou dados coletados por aliados próximos a Trump sugerindo que o Brasil estaria “na mira” dos EUA; esse levantamento não foi registrado junto ao TSE.

Bárbara Zambaldi Destefani é outra investigada por produzir fake news e financiar atos antidemocráticos; ela mantém ativo seu canal “Te Atualizei” nas plataformas X (antigo Twitter), Instagram e YouTube além disso criou seu próprio aplicativo após ter seus perfis bloqueados pelo STF.

Nesses espaços virtuais ela frequentemente critica decisões tomadas pelo STF defendendo inclusive intervenções externas no Brasil além da possibilidade real do impeachment dos ministros dessa Corte. Em um vídeo publicado em março deste ano ela exibiu uma imagem gerada digitalmente mostrando Alexandre Moraes preso sendo observado tanto por Donald Trump quanto Elon Musk.

Suas publicações também utilizam estratégias para compartilhar conteúdos “privadamente”, como convites como: “Comente ‘FAMÍLIA’ para receber acesso aos vídeos secretos da Família Te Atualizei”.

Enzo Leonardo Suzi Momenti conhecido online como Enzuh também foi alvo da CPMI das Fake News assim como esteve sob investigação no Inquérito das Fake News onde passou por busca e apreensão tendo suas redes sociais bloqueadas anteriormente.

Ainda assim atualmente seu canal continua ativo publicando conteúdos frequentes envolvendo teorias conspiratórias ligadas aos eventos ocorridos em 8 de janeiro levantando suspeitas sobre as urnas eletrônicas além dos recorrentes ataques direcionados ao STF especialmente contra o ministro Alexandre Moraes; frequentemente compartilha declarações feitas por Donald Trump relacionadas ao Brasil mencionando até mesmo possíveis impeachment dos ministros desse tribunal com manchetes sensacionalistas; são cerca três ou mais posts diários publicados.

No dia 15 agosto publicou um vídeo alegando falsamente que as urnas apresentaram erros durante testes auditórios; até agora nenhuma falha foi detectada nos processos auditórios desses equipamentos eleitorais.

Ao ser consultado pela reportagem Enzo afirmou que “todas as minhas contas foram desbloqueadas” ressaltando estar limpo perante justiça enquanto menciona estar sendo investigado há sete anos sem ter recebido qualquer explicação sobre isso; quanto ao vídeo declarou ser apenas clickbait autoexplicativo adicionando: “Inclusive incentivo sim todos irem votar… Eu não promovo nenhuma conspiração”.

Seguem ativos também os perfis Brasileirinhos associados a Eduardo Fabris Portella assim como Dr. Marcelo Frazão ambos estão sob investigação pelo STF no inquérito número 4874 relacionado à organização atos antidemocráticos ocorridos em 2021; enquanto isso o perfil “RoboConservador”, vinculado Rafael Moreno investigado no contexto das fake news tem sido usado para alavancar campanha Bárbara Kogos (NOVO-SP) para deputada federal.

Para Curzi permanece evidente que os perfis ligados indivíduos já investigados continuam operacionais devido à ampla capacidade escalável desses conteúdos; “Suspensões pontuais podem limitar certos casos mas não há solução estrutural real para combater desinformação”, analisa.
Ela ainda complementa afirmando que muitas vezes plataformas falham ao cumprir ordens judiciais já existentes: “As empresas removem algumas contas mas deixam outras ativas sem transparência adequada”, explica.
Desde junho passado após decisão revendo artigo 19 Marco Civil porém agora essas plataformas não precisam mais esperar ordens judiciais para remover conteúdos considerados antidemocráticos podendo incorrer penalidades caso não tomem medidas necessárias para impedir disseminação desse tipo conteúdo.”

Foram realizadas consultas à Meta responsável pelas plataformas Instagram Facebook bem como Google responsável YouTube visando esclarecer medidas adotadas para combater desinformação nas eleições assim como colaborações estabelecidas junto TSE sobre assunto.
O Google afirmou atuar conforme legislação vigente cumprindo ordens judiciais válidas emitidas pelos tribunais incluindo STF TSE mas não comenta casos específicos sob investigação.
A Meta apenas enviou link informativo sobre abordagem plataforma essas eleições indicando parceria firmada autoridades intensificando esforços contra uso indevido imagens candidatos figuras públicas.”

Os perfis citados foram abordados pela reportagem mantendo espaço aberto para quaisquer manifestações pertinentes.

By Brasilia Hoje

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