Ricardo Nunes enfrenta dificuldades com parceiros envolvidos em supostas conexões com o crime organizado

Deseja receber os conteúdos desta coluna diretamente no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, que é enviada todas as sextas-feiras às 8h. Para garantir sua assinatura nas próximas edições, inscreva-se aqui.

O prefeito Ricardo Nunes precisa ficar mais atento às pessoas que o cercam para evitar problemas futuros. No dia 17 de setembro, o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), que já exerceu sete mandatos e foi presidente da Câmara em seis ocasiões, teve um mandado de prisão temporária emitido durante uma operação policial que investiga a infiltração do PCC no sistema de transporte público de São Paulo. A prisão ainda não havia sido realizada porque as autoridades não conseguiram encontrá-lo até então.

Em sua coluna, o jornalista Leonardo Sakamoto destacou que nos corredores da política municipal, Leite era visto como o “segundo prefeito”. Ele não foi escolhido como vice na chapa de Nunes para a prefeitura devido à operação Fim da Linha, realizada em abril de 2024, que revelou suas ligações com a Transwolff, uma empresa de ônibus acusada de lavar dinheiro para o PCC. Após essa operação, Nunes se viu forçado a cancelar o contrato com a Transwolff e firmou novos acordos com outras duas empresas, sendo uma delas também mencionada entre as doze investigadas por supostos vínculos com a facção criminosa.

Nunes sempre declarou desconhecer qualquer irregularidade e alegou não ter envolvimento no caso. Entretanto, ele manteve suas relações com Leite, que liderou o apoio do União Brasil à candidatura de Nunes em 2024. Além do poder político que acumulou na prefeitura, Leite tem grande influência sobre os eleitores da Zona Sul da cidade, onde é reconhecido como patrono da Escola de Samba Terceiro Milênio, localizada no Grajaú.

Depois que surgiram denúncias sobre os laços de Leite com a cúpula da Transwolff em fevereiro de 2025, Nunes nomeou seu filho, Alexandre Leite, como secretário de Relações Institucionais (cargo que ele deixou este ano para concorrer a deputado federal). Recentemente, uma nova operação identificou Leite como “dono oculto e de fato” da Transwolff, que continua operando em conexão com o crime organizado. Isso resultou em mandados de prisão contra o ex-vereador e um candidato do PL chamado Danilo Morgado, além de Levi Oliveira, ex-presidente da SPTrans.

Apesar das graves acusações contra Leite — conforme esclarecido pelo desembargador Sérgio Antônio Ribas ao autorizar as investigações — Nunes reafirmou sua admiração pela trajetória política dele. O MP argumenta ainda que depoimentos obtidos indicam que a escolta da liderança da Transwolff era feita pela PM sob responsabilidade do governador.

Tarcísio de Freitas, outro aliado político de Nunes que afirma combater o crime organizado, elogiou Leite recentemente durante um evento para lançar a campanha dos filhos dele na Zona Sul. Tarcísio agradeceu à família Leite pelo apoio: “Quando chegamos a São Paulo, fomos acolhidos por eles; houve uma parceria significativa e sempre percebi a preocupação deles com as pessoas.”

Além dessas questões envolvendo aliados políticos como Flávio Bolsonaro — alvo recente de uma representação ao Ministério Público Eleitoral por duas candidatas do PSOL — Nunes também enfrenta complicações. As candidatas alegam que ele utilizou recursos da prefeitura em um ato eleitoral para apoiar o candidato presidencial do PL em São Miguel na Zona Leste.

Flávio Bolsonaro está sob investigação pela Polícia Federal desde julho por suspeitas relacionadas à lavagem de dinheiro e corrupção. Ele conta com apoio ativo de Nunes e do governador Tarcísio na mobilização de prefeitos para um evento no dia 7 de setembro. Durante esse evento, Nunes distribuiu camisetas com mensagens favoráveis ao “herói” da direita evangélica Mendonça e se vê envolvido no caso Dark Horse; neste caso específico, o ministro Flávio Dino incluiu um contrato sob investigação firmado por Nunes com uma ONG ligada à produtora do filme Karina Gama.

Conforme estabelecido em um contrato assinado pela prefeitura em junho de 2024, o Instituto Conhecer Brasil (ICB) receberia R$ 108 milhões para instalar Wi-Fi gratuito em 5.000 pontos na periferia paulista ao longo de dois anos. Contudo, nem o ICB nem Karina haviam prestado serviços desse tipo anteriormente e apenas 3.200 pontos foram entregues até maio deste ano — além disso, os custos totais superaram R$ 113 milhões.

Nunes tem demonstrado distração quanto às suas associações políticas. Em dezembro de 2024, foi revelado pela Folha de S.Paulo que ele e sua família residiram por quatro meses em um imóvel luxuoso pertencente a Fernando Marsiarelli — empresário detentor de mais de R$ 600 milhões em contratos sem licitação com a prefeitura. Marsiarelli também disponibilizou imóveis ao chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras Eduardo Lovatto, cujos laços familiares incluem uma conexão direta com Marcola — notório líder do PCC.

Nunes afirmou ter alugado o imóvel sem saber sobre sua propriedade anterior por Marsiarelli e justificou que Lovatto era um funcionário efetivo; apesar disso, Lovatto foi nomeado para um cargo relevante durante esta administração. Ele só foi exonerado após as eleições terem terminado e está sendo investigado por realizar campanha eleitoral para Nunes junto à Potenza — outra construtora envolvida em contratos sem licitação com a gestão atual.

Nunes e seu candidato presidencial compartilham não apenas conexões suspeitas mas também um padrão no uso indevido de propriedades alheias. No início da campanha eleitoral, Flávio utilizou um apartamento localizado em um dos bairros mais nobres da cidade para gravar vídeos promocionais; esse imóvel pertencia a Fabiano Zettel — cunhado vinculado ao esquema financeiro Vorcaro — vendido pouco antes pelo valor inferior ao preço pago na aquisição anterior quando Zettel já estava preso.

A família Bolsonaro tem sido descrita como uma “franquia política”, dada sua ampla rede envolvendo negócios e parcerias voltadas à obtenção benefícios financeiros e apropriação indevida dos recursos públicos — desde rachadinhas até investimentos significativos realizados via dinheiro vivo.

Apenas para ilustrar essa questão sistêmica: as facções criminosas frequentemente operam através desse mesmo modelo. Pesquisadores da Universidade do Amazonas alertaram sobre essa infiltração crescente das facções no Estado brasileiro. Diante dessa realidade preocupante, fica difícil confiar na capacidade de Nunes ou seus aliados como Tarcísio e Flávio Bolsonaro para enfrentar o crime organizado.

Enquanto clamam pela intervenção dos Estados Unidos sob alegações relacionadas ao “narcoterrorismo”, tanto Flávio Bolsonaro quanto seus aliados paulistas parecem carecer das credenciais necessárias para efetivamente combater as organizações criminosas presentes no país.

By Brasilia Hoje

Related Posts