Natália Vorcaro Zettel continua ativa no setor empresarial, apesar da prisão de seu pai, Henrique Vorcaro, de seu irmão, Daniel Vorcaro, de um primo, Felipe Cançado Vorcaro, e de seu marido, Fabiano Zettel, todos sob suspeita de envolvimento em fraudes relacionadas ao Banco Master. Ela possui 54 empresas associadas a seu nome, que juntas ultrapassam R$ 796 milhões.
Dentre essas empresas, 37 não enfrentam restrições judiciais e estão aptas a realizar transações financeiras. Natália é identificada como representante legal ou administradora em 33 delas, atuando como diretora em 13 e ocupando a presidência em 8.
As atividades principais das empresas incluem participação em outras organizações, holdings não financeiras, gestão de negócios e operações no mercado imobiliário. Natália é casada com Fabiano Zettel sob regime de separação total de bens. Seu pai, Henrique, está registrado como participante em 22 das empresas; já o irmão Daniel Vorcaro, ex-proprietário do extinto Banco Master, não figura oficialmente nas sociedades. Fabiano se associa apenas a uma das empresas.
Dentre as empresas vinculadas a ela, 35 operam sob o mesmo endereço: uma sala comercial localizada em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG). Outras sete estão registradas no mesmo andar de um prédio na capital mineira. Algumas dessas empresas também figuram como sócias entre si.
Além disso, outros empresários estão envolvidos como sócios ou dirigentes nas corporações mencionadas. Entre eles estão Francisco Stehling Bisneto, Pedro Henrique Barbosa da Cruz, Fernando Alves Vieira e Thiago Assumpção Henriques. Esses indivíduos já foram mencionados em investigações sobre irregularidades do Banco Master.
Henriques foi citado como potencial testemunha na CPI das Bets devido à sua posição como diretor da Viacap, uma empresa que realiza rifas e que conta com a colaboração de diversos influenciadores digitais. Já Vieira foi associado a garantias em transações ligadas às Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs).
Representação criminal no MPF
A atuação empresarial de Natália levou à apresentação de uma representação criminal ao Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo por parte do deputado federal Kiko Celeguim (PT-SP) e seu pai, o deputado estadual Maurici (PT). Eles alegam indícios de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial nas operações comerciais da pastora, baseando-se na movimentação financeira das empresas conectadas a ela.
O MPF confirmou que recebeu a representação e que o processo está em andamento. Em resposta a solicitações da imprensa, a assessoria da Procuradoria informou que não pode divulgar detalhes sobre o andamento do caso por se tratar de segredo judicial.
Os parlamentares destacam que as empresas realizaram diversas operações imobiliárias em São Paulo e sugerem que as investigações sejam conduzidas pela regional paulista. Em apurações iniciais, foram identificadas várias suspeitas de irregularidades. Foram analisadas aquisições realizadas por Natália envolvendo 13 imóveis – cinco localizados em São Paulo e os demais na região metropolitana de Belo Horizonte – além de 15 propriedades pertencentes à Ephesus Empreendimentos e Participações. Esta última desempenha um papel central na rede envolvendo Natália Vorcaro e é também sócia de outras empresas associadas à pastora.
Um exemplo mencionado pelos parlamentares diz respeito à compra de quatro terrenos em Sete Lagoas (MG), que foram adquiridos por R$ 2,5 milhões e posteriormente leiloados por R$ 10 milhões. Esses terrenos foram negociados pela Mirante Fidalgo Empreendimentos Imobiliários, cujo proprietário Aroldo Rodrigues da Silva já havia sido mencionado anteriormente no contexto do Banco Master por supostamente utilizar terrenos superfaturados para aquisição do banco por Vorcaro e movimentar valores antes da liquidação para dificultar pagamentos aos credores.
As transações foram realizadas pela Superávit Participações sob a direção de Natália. Posteriormente renomeada para Athenas Participações, essa empresa passou a ter como único sócio Márcio Alexandre Saito, também citado nas investigações envolvendo o Banco Master devido ao seu papel anterior como administrador da Entre Investimentos – entidade liquidada pelo Banco Central.
Nesse contexto também são mencionados a Entre Investimentos e Participações como credores fiduciários junto ao Banco Master. A representação da Entre no negócio é feita por Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, cuja delação premiada foi homologada recentemente.
Freixo está associado a outros escândalos relacionados ao Banco Master e ao irmão de Natália; ele é acusado de transferir R$ 61 milhões para um fundo vinculado a Eduardo Bolsonaro para financiar o filme Dark Horse sobre Jair Bolsonaro. O ministro André Mendonça homologou o acordo firmado entre Freixo e a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Quando contatada pela reportagem, a Polícia Federal não divulgou informações sobre uma possível investigação contra Natália Vorcaro Zettel. Até o fechamento desta matéria, Natalia não havia respondido aos contatos feitos pela equipe jornalística.
Acusações contra a família Vorcaro Zettel
Daniel Vorcaro enfrenta investigações relacionadas a crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro e fraudes financeiras. Ele tentou várias vezes negociar um acordo de delação premiada sem sucesso. Foi detido pela primeira vez em novembro de 2025 no aeroporto de Guarulhos ao tentar deixar o Brasil após uma suposta venda do banco mediada pelo Fictor no dia da liquidação do Master. Em março deste ano foi novamente preso sob suspeita de tentar interferir nas investigações; nessa ocasião foi detido juntamente com Luiz Phillipi Machado de Morais Mourão – conhecido como Sicário – acusado de liderar ações intimidatórias ligadas ao banqueiro; Sicário acabou cometendo suicídio dentro da prisão.
Fabiano Zettel foi preso durante as mesmas investigações sob acusações relacionadas à participação em fraudes financeiras e pagamentos à milícias.
Henrique Vorcaro, pai tanto de Daniel quanto de Natália, foi detido em maio sob acusações incluindo fraude à execução e lavagem de dinheiro; ele é descrito como responsável por solicitar serviços e efetuar pagamentos aos membros dessa estrutura paralela envolvida com intimidações.
Felipe Cançado Vorcaro, primo do banqueiro mencionado anteriormente, também foi preso em maio; ele é acusado de atuar como intermediário nos pagamentos feitos por Vorcaro a políticos influentes como o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Felipe havia sido alvo anterior de um mandado prisional em janeiro mas conseguiu escapar utilizando um carrinho de golfe enquanto estava no condomínio onde residia em Trancoso (BA).
