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Surpreendentemente, foi uma voz do setor e não um jornalista que fez a conexão entre a crise de reputação das Casas Bahia e o colapso da empresa, que solicitou recuperação judicial no último domingo (16).
Com o título provocativo “Casas Bahia, passivo reputacional ou crise do varejo?”, Camila Farani, uma investidora experiente em capital de risco há 15 anos e presidente da G2 Capital, abordou o assunto em sua coluna no Estadão: “A resposta é ambos; um influenciou o outro de maneiras que o balanço financeiro não consegue evidenciar por si só”. Ela também ressaltou: “Há uma narrativa anterior ao balanço que precisa ser revelada”.
É interessante notar que foram jornalistas os responsáveis por dar visibilidade aos eventos que Farani descreve como antecedentes ao balanço. Entretanto, atualmente, a maioria das reportagens se concentrou na “crise do varejo”, uma questão antiga que ajuda a explicar a dívida de 17 bilhões do grupo. Em tempos anteriores à ascensão da Amazon e Mercado Livre, as Casas Bahia eram um dos principais players do mercado nacional e também um dos maiores anunciantes em uma mídia que agora enfrenta dificuldades devido à internet.
“Samuel Klein, o criador da Casas Bahia, iniciou sua trajetória do zero. Imigrante polonês sobrevivente da guerra, ele chegou ao Brasil sem nada e construiu uma das maiores redes de varejo da América Latina. A história do self-made man foi amplamente divulgada pela mídia ao longo dos anos através de livros sobre gestão e palestras sobre empreendedorismo. No entanto, o que nunca foi mencionado até a investigação da Agência Pública em 2021 é que Klein manteve durante décadas um esquema de aliciamento e exploração sexual envolvendo crianças e adolescentes dentro da própria empresa. O caso ficou conhecido como: ‘Caso K’”, destaca a investidora.
Farani também faz referência ao filho de Samuel, Saul Klein, que se tornou réu em maio deste ano sob acusação de favorecimento à prostituição, tráfico de pessoas menores de idade e organização criminosa. Enquanto seu pai não enfrentou processos judiciais – mesmo com registros policiais existentes desde os anos 1990 –, o caso de Saul recebeu mais atenção midiática após ser investigado pelo Ministério Público no final de 2020.
A repercussão do escândalo envolvendo o fundador das Casas Bahia teve consequências significativas após a publicação da reportagem da Pública em abril de 2021. Esta foi a primeira a dar voz às vítimas, muitas das quais eram menores na época dos crimes e descobriram apenas na vida adulta que as violações já estavam prescritas. Entre os desdobramentos está o Projeto de Lei conhecido como PL Caso Klein, que busca alterar o Código Civil para aumentar o prazo de prescrição para vítimas de crimes sexuais contra crianças e adolescentes de 3 para 20 anos. Aprovado pela Câmara em 2023, encontra-se paralisado no Senado desde então.
A família Klein também respondeu às revelações ao suspender as atividades do Instituto Samuel Klein, criado pelos netos após sua morte em 2014 com o intuito de preservar seu legado – agora manchado pelas denúncias contra o patriarca. Embora parte das ações familiares nas Casas Bahia tenha sido vendida em 2013 e a empresa tenha se tornado uma sociedade aberta em 2019, a família ainda exerce influência na administração: Raphael Klein, neto de Samuel e filho de Michael Klein, integra o Conselho de Administração e participa dos comitês financeiros e de governança.
Como observa Farani, as Casas Bahia ofereciam aos clientes de baixa renda um sentido de pertencimento e confiança ao adquirirem bens essenciais como fogões, geladeiras e TVs através de carnês com juros altos que favoreciam os Klein. Essa confiança foi rompida quando esses bens se tornaram “presentes” para filhas de famílias pobres exploradas sexualmente por Samuel Klein, fato evidenciado pelas manifestações realizadas em frente à sede das Casas Bahia após a reportagem da Pública.
Portanto, apesar da crise no varejo desencadeada pela ascensão do comércio eletrônico e pelos elevados juros afetando toda a economia brasileira (para mais detalhes sobre isso, consulte a coluna de Clara Saliba), é crucial não analisar essa situação apenas sob uma perspectiva financeira: “A crise financeira possui soluções técnicas. É possível renegociar dívidas, fechar lojas ou cortar custos; essas opções são difíceis e onerosas, mas existem caminhos viáveis. Já a crise identitária é diferente; ela surge quando os fundamentos da marca são exatamente aquilo que não pode mais ser afirmado”, explica Farani.
Este episódio serve como um alerta para empresários e evidencia a relevância do jornalismo investigativo independente na ruptura do silêncio imposto pela mídia – possivelmente influenciado pelo peso dos anunciantes. Além disso, demonstra por que mesmo diante dos desafios enfrentados pelo jornalismo contemporâneo ele continua sendo essencial para a sociedade, justiça e democracia.
Com as transformações na comunicação atual e com novas entidades controlando os meios midiáticos – as big techs –, são as investigações corajosas realizadas por jornalistas que têm poder para provocar mudanças sociais, expondo injustiças cometidas por indivíduos como Samuel e Saul Klein, Daniel Vorcaro entre outros personagens proeminentes nos setores empresarial e político.
Um ativo fundamental para o país nas atuais eleições está ameaçado por mentiras e desinformação nas redes sociais além da interferência externa — como nos lembram figuras como Donald Trump e os Bolsonaro. Fiquemos atentos!
