Em 2 de fevereiro de 2021, na manhã em que a família de Cristiane começava seu dia, seus filhos estavam brincando na entrada de casa: Ana Clara, uma menina de cinco anos, e Pedro, com apenas dois. A tranquilidade foi abruptamente interrompida por dois disparos. Ao correr em direção às crianças, Cristiane encontrou um policial à frente de Ana Clara, que disparou várias vezes para o alto em silêncio. O agente não se preocupou em prestar socorro à garotinha até que outro policial se aproximou e lhe disse: “pega a garota que você fez merda”.
“Ele a pegou de qualquer jeito, como se não quisesse manchar sua farda de sangue. Eu tirei minha filha dos braços dele e a carreguei no meu colo. Ela não chorava, não gemia e não gritava. Quando chegamos perto do hospital, ela abriu os olhos e uma lágrima escorreu. Para mim, ela morreu ali”, recorda Cristiane Gomes da Silva, que tinha apenas 15 anos quando Ana Clara nasceu.
No dia 19 de outubro, após o debate entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro na Band, a hashtag #PesquiseOCasoAnaClara ganhou força nas redes sociais. Isso ocorre porque Flávio atua como advogado do policial Bruno Dias Delaroli, acusado pelo assassinato da criança e que permanece livre até hoje, conforme mencionado por Lula durante o debate.
O caso foi revelado ao público em março por meio de uma reportagem de Alice Maciel publicada pelo ICL Notícias. Recentemente, a série “Revelando” abordou novamente o assunto em um episódio de 22 minutos apresentado pela atriz Camila Pitanga. Em 2024, já como senador da República, Flávio assumiu a defesa do policial e protocolou um recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) buscando reverter a decisão que determinou um júri popular. Embora essa solicitação tenha sido negada, até agora ainda não houve julgamento.
Cristiane recebeu apoio nas redes sociais, mas também enfrentou hostilidade por parte dos apoiadores de Flávio Bolsonaro. Com isso, começou a sentir-se ameaçada na área onde reside, em Largo da Batalha, Niterói, próximo ao local onde sua filha foi morta. Enfrentando crises de pânico e depressão, decidiu se afastar das mídias sociais e ainda teve que deixar a casa onde morava temporariamente devido à pressão do proprietário bolsonarista.
Ela assistiu parte do debate entre Lula e Flávio e descreve como “desesperador” ver o senador evitar responder sobre Ana Clara. “As pessoas não percebem que sou uma mãe que perdeu sua filha; muitos acreditam que estou tentando prejudicar Flávio. Outros dizem que fui eu quem errei ao deixar meus filhos na porta de casa. Flávio conseguiu anular o júri do policial e tentou protegê-lo do julgamento pelo crime cometido. Tenho certeza de que se ele for eleito, esse caso será esquecido e nunca terei paz sabendo que quem matou minha filha não está sendo punido”, desabafa Cristiane.
Embora Cristiane não se considere uma militante política – no primeiro turno das eleições optou por não votar após recomendação da advogada devido às ameaças recebidas – há mais de cinco anos ela aguarda o agendamento do julgamento do assassino da filha. Inicialmente marcado para 14 de abril deste ano — data em que Ana Clara completaria 11 anos — foi adiado para 21 de outubro e posteriormente remarcado para 5 de maio de 2027. “Disseram que houve novo adiamento porque a juíza tem outro compromisso naquela data. Só existe ela como juíza? Por que atrasar tanto?”, questiona indignada Cristiane. “A perícia confirmou quem atirou; todos sabem que aquele policial é o responsável pela morte da minha filha, mas estou à mercê dessa Justiça.”
Após a tragédia com Ana Clara, a estrutura familiar se desfez. O filho mais novo dela, Pedro, agora com oito anos, ainda guarda memórias da irmã falecida ao seu lado e faz terapia desde então; neste momento ele não reside com Cristiane. “Eu ainda tenho a guarda dele, mas optei por deixá-lo com minha mãe. Não quero que ele passe pelo sofrimento que estou enfrentando. Meu sonho é conseguir um emprego para ter minha própria casa e trazê-lo de volta para mim”, lamenta Cristiane.
Ela relata as dificuldades em encontrar trabalho: abandonou os estudos na adolescência ao engravidar da filha. “Envio currículos para diversos lugares e faço faxinas; mas nada certo aparece para mim. Preciso me fazer forte todos os dias, mas às vezes é difícil lidar com a realidade angustiante da situação; sinto pânico frequentemente. Há momentos em que desisto tudo e só quero ficar sozinha; penso em como essa vida está insuportável até olhar para Pedro e lembrar o quanto precisamos um do outro”, afirma Cristiane aos 27 anos enquanto vive temporariamente na casa de uma amiga sem condições financeiras adequadas — há três dias sem gás ou comida.
Cristiane revela ter pegado um empréstimo abusivo após perder Ana Clara pois não tinha dinheiro para custear o funeral da própria filha; acabou devendo R$ 100 mil após iniciar com uma dívida inicial de R$ 6 mil com agiotas. “Minha defesa requisitou R$ 400 mil como indenização pela morte da minha filha; porém o Estado apenas ofereceu R$ 140 mil. No desespero pela ameaça dos agiotas eu peguei esse valor emprestado para quitar minhas dívidas”, explica.
Até hoje Cristiane nunca recebeu contato ou pedido desculpas por parte do Estado sobre sua perda: “Eu acordo todo dia sem minha filha ao meu lado; nunca ouvi uma palavra sequer deles sobre tudo isso”. Ela admite nunca ter buscado tratamento psicológico antes mas atualmente percebe quão necessário isso seria: “Existem noites em que simplesmente não consigo dormir — especialmente no final do ano ou quando chega aniversário dela”. Ela evita ver fotos antigas pois isso traz dor: “Hoje ela teria 11 anos; fico pensando em como seria sua vida agora”, reflete.
Cristiane teme tanto pela família Bolsonaro quanto pelo policial Delaroli — um PM lotado no 16º Batalhão da PM em Itaboraí: “Sinto medo sim; mas vou me calar? Deixar passar mais anos sem justiça? Apenas mais uma criança assassinada esquecida? Agora tenho essa oportunidade de trazer tudo à tona novamente; portanto não posso permanecer em silêncio.”
Ela expressa suas dúvidas quanto à Justiça: “Estou vendo como funciona para quem detém poder; eu definitivamente não posso pagar um advogado influente como Flávio Bolsonaro para defender minha filha ou mudar datas judiciais”. Contudo mantém uma pequena esperança: “Prometo lutar para garantir que Ana Clara não seja esquecida; quantas vezes forem necessárias eu vou gritar seu nome! Ela era viva! Tinha sonhos! Queria um quarto rosa! Eu pintei seu túmulo.”
Desde aquele dia fatídico Cristiane pede divindades por visões sobre Ana Clara — tanto sobre como estaria viva hoje quanto sobre seu estado espiritual atual: “Há dois meses tive um sonho incrível onde vi minha filha crescida com cabelos cacheados me abraçando”, conta emocionada.
Sua fé é o pilar fundamental neste momento difícil: “Mamãe Iansã sempre presente nas tempestades”, compartilhou recentemente em seu status no WhatsApp homenageando a orixá dos ventos. Também publicou fotos ao lado da filha com palavras emocionantes: “Ainda te espero aqui na porta de casa; cinco anos cabem num abraço eterno! Teu nome permanece vivo dentro mim enquanto eu respirar.”
