Uma Década do Impeachment de Dilma Rousseff: A Votação que Transformou o Brasil

Em 17 de abril de 2016, o Brasil presenciou a votação do segundo pedido de impeachment de um presidente da República desde que o país se redemocratizou. Ao contrário do que ocorreu em 1992 com Fernando Collor (PRN), que renunciou antes da votação final, o processo contra Dilma Rousseff (PT) avançou até sua conclusão. Este período foi repleto de controvérsias e ataques misóginos direcionados à então presidente, que havia sido reeleita pela maioria dos votos nas eleições de 2014.

A abertura do processo foi aprovada pela Câmara dos Deputados com um resultado expressivo: 367 votos a favor, 137 contra e sete abstenções. A votação foi transmitida em rede nacional e muitas das justificativas apresentadas em apoio ao impeachment continham discursos de ódio, ofensas pessoais à presidenta e até mesmo incitação ao crime. Um exemplo disso foi a declaração do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), na época deputado federal, que dedicou seu voto ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, conhecido por ter torturado Rousseff durante a ditadura militar. O processo foi encaminhado ao Senado Federal após essa votação e culminou no afastamento definitivo da ex-presidente em 31 de agosto de 2016.

Em uma conversa com Pauta Pública, Jean Wyllys, ex-deputado federal e pré-candidato pelo PT para a Câmara dos Deputados em São Paulo, recorda o ambiente tumultuado daquela data. Ele também foi alvo de ofensas homofóbicas por parte de Bolsonaro e respondeu com uma cusparada. Esse incidente resultou em ameaças contra Wyllys, que decidiu renunciar ao terceiro mandato pelo PSOL. Ele analisa os fatores que transformaram aquela votação em um espetáculo político. Segundo ele, a configuração do plenário foi alterada para a ocasião, com a criação de uma passarela central que obrigava os parlamentares a se deslocarem até um ponto visível para votar, rompendo com o formato habitual.

“Eduardo Cunha [ex-presidente da Câmara dos Deputados responsável pela condução da votação] preparou um cenário onde os deputados desfilariam até a frente para fazer seus votos. A intenção era não apenas destituir Dilma do poder, mas também impor um ritual humilhante. O elemento da misoginia foi crucial nesse contexto”, declarou.

Confira os principais trechos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 211
O impeachment de Dilma Rousseff: 10 anos da votação que mudou o Brasil


JEAN WYLlYS recorda o dia que transformou a dinâmica política brasileira

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Este ano marca uma década desde o episódio em que você cuspiu em Bolsonaro. Com tantas mudanças desde então, como você revisita esse acontecimento?

Esse episódio adquiriu novos significados ao longo dos anos. Hoje pode ser visto como uma simples cusparada ou como uma “cuspida invejada”, como diria na Bahia. Contudo, ainda é lembrada com aversão por muitos.

Reavaliando, cuspir na cara de Bolsonaro naquela noite representou o auge das minhas indignações acumuladas desde os protestos pela destituição de Dilma e as manifestações extremistas que surgiram nas ruas. Esses movimentos começaram em 2013 com reivindicações razoáveis como o Passe Livre, mas logo se transformaram no Brasil Livre e no Movimento Brasil Livre, ambos financiados por setores da direita brasileira.

No meu segundo mandato como deputado federal pelo PSOL, eu fazia oposição ao governo Dilma; no entanto, gradualmente passei a defender a legalidade e a democracia diante das mentiras veiculadas pela mídia sobre as investigações da Lava Jato confundidas com os erros do governo Dilma — tudo isso permeado por misoginia. Essa hostilidade era fundamental para sustentar essa narrativa.

Acredito que alguns setores do PT acabaram abandonando Dilma sem oferecer ajuda suficiente. O apoio contra o impeachment era minoritário e se concentrava entre negros, sem-terra, mulheres feministas e LGBTQIA+. Enquanto isso, à direita estavam os brancos vestidos de verde e amarelo celebrando efusivamente. Naquele domingo decidi vestir meu cardigan vermelho para lembrar um tempo em que usar essa cor era considerado crime.

Como você percebeu o momento da votação?

Além da divisão entre dois lados na Esplanada — onde à direita predominavam pessoas brancas apoiadas pela Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], acomodadas em ônibus fretados pelo agronegócio — havia bem mais gente nessa ala. Para criar um clima nacional humilhante não bastava tirar Dilma do poder; era necessário um ritual constrangedor.

Eduardo Cunha deu andamento ao processo movido contra Dilma por retaliação às investigações sobre corrupção nas quais ele estava envolvido. Ela mantinha sua integridade e seguiu adiante em sua trajetória honesta. É possível que Eduardo Cunha tenha obtido benefícios financeiros durante a noite do impeachment ao contratar uma empresa para modificar a arquitetura interna do plenário Ulysses Guimarães.

No plenário existiam dois lados distintos e duas tribunas; assim poderia ocorrer uma votação normal como sempre acontece. No entanto, Cunha alterou essa estrutura criando uma passarela central suspensa que levava aos microfones onde os parlamentares votavam publicamente — uma estratégia pensada para humilhar Dilma durante aquele ato cerimonializado. Assistimos a uma sequência aterrorizante de votos.

A Globo interrompeu toda sua programação para apoiar o golpe contra Dilma e propagandear Eduardo Cunha durante toda a votação do impeachment. A intenção era não apenas humilhar Dilma localmente, mas também fazê-lo nacionalmente.

A misoginia teve papel indiscutível nesse contexto; nenhum homem — nem mesmo Collor, conhecido por suas práticas corruptas — sofreu um impeachment dessa forma brutalizada. Estava sendo destituída uma mulher honesta porque havia interesses por trás desse movimento visando implementar políticas econômicas não aprovadas nas eleições anteriores.

No atual cenário político brasileiro onde Bolsonaro está preso mas sua ideologia persiste — incluindo Flávio Bolsonaro crescendo nas intenções de voto — como você avalia essa situação?

Sinto-me preocupado com dois aspectos principais: primeiro, a postura da mídia tradicional hegemônica no país tem favorecido Flávio Bolsonaro ao ponto de omitir seu sobrenome nas reportagens sobre ele. Esses veículos estão alinhados com setores dominantes já envolvidos anteriormente em projetos autoritários e podem repetir essa aliança mesmo cientes dos riscos à estabilidade nacional.

Pode-se estar trocando um cenário estável economicamente por um projeto liderado por alguém controverso cuja família tem histórico criminal ligado à tentativa de golpe no passado recente. Além disso, as grandes plataformas digitais representam um risco ainda maior; mudanças nos algoritmos podem impactar drasticamente o fluxo informativo nas semanas anteriores às eleições assim como aconteceu em 2018.

Nesse período houve repercussões diretas sobre as percepções dos eleitores na reta final das campanhas eleitorais que não foram refletidas pelas pesquisas convencionais — explicando resultados inesperados como a derrota de Dilma para o Senado ou ascensão política de figuras como Wilson Witzel no Rio de Janeiro.

Dessa forma é fundamental que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) junto aos TREs (Tribunais Regionais Eleitorais) implementem mecanismos adequados para monitorar essas plataformas digitais e prevenir interferências indevidas nos processos eleitorais através da desinformação massiva.

Além disso é crucial não normalizar figuras como Flávio Bolsonaro; em 17 de abril de 2016 já vivemos esse processo quando Jair Bolsonaro homenageou um torturador durante seu voto — isso teve repercussões diretas posteriormente inclusive na eleição de 2018 e na gestão da pandemia atual. Não devemos permitir que tais comportamentos voltem a acontecer.

By Brasilia Hoje

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