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Na semana passada, a Nasa deu um passo significativo com o relançamento das expedições espaciais à Lua através da missão Artemis 2. Esse evento gerou um burburinho nas redes sociais, onde muitos internautas começaram a comparar as imagens da Terra capturadas pelos astronautas atualmente com as fotos tiradas há mais de cinco décadas, especificamente em 1972, quando os americanos realizaram sua última visita ao nosso satélite natural. Um dos comentários que circulou foi a sugestão de que as novas imagens evidenciam sinais do aquecimento global, já que a foto de 1972 mostrava uma quantidade considerável de gelo polar em comparação com 2026.
As fotos foram exibidas de forma “invertida”, apresentando a Antártida na parte superior da imagem. Observando-as, nota-se uma redução significativa das áreas brancas em 2026 em relação àquelas de 1972, sugerindo uma diminuição do gelo terrestre.
Inicialmente, deixei-me levar pela ideia de que essa comparação fazia sentido – reconheço que as regiões congeladas do planeta estão em declínio – e acabei compartilhando uma dessas postagens no Instagram. No entanto, logo surgiu uma dúvida pertinente que todo jornalista deve considerar: “Isso é realmente correto?” O enquadramento poderia ter influenciado a interpretação das imagens.
Decidi consultar um dos principais especialistas sobre a Antártida no Brasil, Francisco Aquino, conhecido como Chico Geleira, que é pesquisador no Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele esclareceu que não é adequado comparar o gelo marinho e o gelo continental entre essas duas fotografias devido ao ângulo da imagem mais recente.
“A posição da imagem atual dificulta a visualização do gelo marinho ao redor da Antártida. A orientação da foto não favorece uma boa vista da região; ela está muito próxima do limite do horizonte. Já na fotografia de 1972, o ângulo permitiu observar parte da África austral em direção à Antártida, facilitando a visualização do gelo marinho”, explicou ele.
No entanto, isso não significa que o problema não exista. “Estamos registrando níveis alarmantemente baixos de gelo marinho ao redor da Antártica devido às mudanças climáticas. Em 26 de fevereiro deste ano, atingimos o mínimo histórico para o gelo durante o verão. Além disso, também observamos índices reduzidos durante o inverno”, comentou Chico Geleira.
A Nasa indica que a Antártida está perdendo massa de gelo a uma taxa alarmante de 135 bilhões de toneladas anualmente. Na Groenlândia, essa perda quase dobra: são cerca de 266 bilhões de toneladas por ano, contribuindo significativamente para o aumento do nível dos mares. O New York Times, inclusive, publicou uma reportagem impactante sobre as consequências globais decorrentes do derretimento antártico. É recomendável conferir os gráficos disponíveis.
A comparação entre a Terra atual e aquela de 1972 revela diversos indicadores preocupantes. A concentração atmosférica de dióxido de carbono (CO2) aumentou substancialmente, passando de 327 ppm (partes por milhão) para 424 ppm (dados referentes a 2024), refletindo diretamente no aumento das temperaturas.
Enquanto em 1972 a temperatura média global se mantinha dentro dos padrões típicos do século XX, atualmente estamos lidando com um aumento próximo a 1,5°C acima dessa média. Os últimos onze anos figuram entre os mais quentes já registrados. Além disso, o nível dos mares subiu mais de dez centímetros nesse intervalo superior a cinquenta anos. O aumento na frequência de ondas de calor e eventos climáticos extremos é uma manifestação evidente dessas transformações.
Ainda assim, observar nosso planeta à distância continua sendo uma das experiências mais fascinantes proporcionadas pelas explorações espaciais. Isso serve como um lembrete crucial: apesar dos avanços rumo à Lua e planos para Marte – incluindo possíveis bases habitáveis – este ainda é o único planeta capaz de sustentar vida como conhecemos. Dizer que não existe um planeta B não é apenas conversa ambientalista.
A astronauta Christina Koch, integrante da missão e primeira mulher a sobrevoar a Lua, compartilhou suas impressões: “Percebi não apenas a beleza deste planeta, mas também a vastidão sombria ao seu redor e como isso realça ainda mais sua singularidade.”
Ela continuou refletindo: “Isso realmente destaca nossas semelhanças; todos nós dependemos das mesmas condições para viver no planeta Terra.” A diversidade e valor dessa realidade se tornam ainda mais claros quando consideramos tudo ao nosso redor.
O piloto Victor Glover também fez declarações emocionantes – ele é notável por ser o primeiro negro a viajar até nosso satélite natural: “Em meio ao vazio imenso chamado universo, encontramos este oásis lindo onde podemos coexistir – juntos”, disse ele em um discurso divulgado pela Nasa durante o domingo de Páscoa.
Glover evocou passagens bíblicas e pediu que todos vissem aquele momento como “uma oportunidade para refletirmos sobre nossa origem coletiva e nossas semelhanças fundamentais”. Sua mensagem foi um apelo à paz em tempos turbulentos.
No ano de 1968, quando pela primeira vez se capturou a imagem da Terra vista do espaço – famosa pelo “nascer da Terra” –, o astronauta Jim Lovell expressou sentimentos semelhantes enquanto estava na Apollo 8: “A visão da Terra aqui é como um grande oásis na imensidão cósmica.”
Aquela icônica imagem inspirou Caetano Veloso na composição da canção “Terra” e é amplamente creditada por ter impulsionado movimentos ambientalistas globalmente. Embora já tivéssemos consciência das alterações prejudiciais no planeta e soubéssemos que ele era único e vulnerável neste vasto universo, naquela época ainda estávamos longe de entender toda a extensão desse problema.
Diante das novas fotografias tão impressionantes e reveladoras que temos acessado atualmente, é impossível não refletir sobre como nossa compreensão acerca dessas questões evoluiu desde então – muito disso devido às tecnologias desenvolvidas através das explorações espaciais – permitindo-nos reconhecer que estamos trilhando um caminho errado e fornecendo ferramentas para alterá-lo. Contudo, essa mudança ainda está por vir. Essa realidade nos recorda quão rara é a Terra.
