A primeira fase da pesquisa do projeto “Reação em Cadeia”, conduzida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), revelou que o trabalho em condições análogas à escravidão permeia as cadeias produtivas de grandes corporações brasileiras, incluindo empresas bilionárias. Aproximadamente R$ 48 bilhões em transações comerciais conectam cerca de 50 grandes organizações a práticas laborais semelhantes à escravidão.
Entre as empresas citadas estão a JBS S.A. e a Cargill, ambas reconhecidas no setor do agronegócio mundial, que enfrentam Ações Civis Públicas após se negarem a formalizar acordos de ajustamento de conduta com o MPT. Outras três companhias também estão na mesma situação: Brasil Global Agroindustrial Ltda, CM Distribuidora de Alimentos Ltda e RRX Comércio de Carnes Eireli.
Cerca de sete outras empresas e dois municípios firmaram termos de ajustamento de conduta (TAC) após terem seus fornecedores ligados ao trabalho escravo identificados: Gol Combustíveis S/A, Agropecuária Nova Gália, Âncora Siderúrgica Ltda, Balbinos Agroindustrial – Eireli, Bonna Vitta Indústria e Comércio Ltda; Sidermin Siderúrgica Mineira Ltda, Viena Siderúrgica, além das cidades de Soledade (RS) e Taperoá (PB).
Os dados apresentados pelo MPT são resultado de uma investigação abrangente que começou com resgates de indivíduos em situações análogas à escravidão e traçou as relações comerciais dos envolvidos até as empresas que adquiriram produtos provenientes dessa exploração. Este processo incluiu frigoríficos, firmas agrícolas e grandes compradores que sustentam essa demanda.
Conforme o levantamento realizado, mais de 50 empresas foram detectadas como tendo ligação comercial com fornecedores flagrados em situações análogas à escravidão apenas na recente análise que começou em 2024. Além das empresas que já firmaram acordos ou enfrentam ações civis públicas conhecidas, outras estão em processo de negociação. Essa situação não apenas aponta para a extensão do problema, mas também para a dificuldade em rastrear todas as interconexões dentro das longas e fragmentadas cadeias produtivas.
Segundo Luciano Aragão, chefe da Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Conaete) do MPT, a seleção das empresas não se baseou no seu tamanho, mas sim na relação comprovada com fornecedores irregulares.
“A investigação se inicia pelo fornecedor flagrado no trabalho análogo à escravidão. A partir daí, o objetivo é identificar quem comprou essa produção, seja direta ou indiretamente. Esse rastreamento nos levou às empresas sob investigação”, esclareceu Aragão.
Ao seguir esse fluxo investigativo, o resultado frequentemente apontou para grandes instituições. “Não houve uma seleção prévia por corporações gigantescas; no entanto, ao analisarmos a cadeia produtiva, constatamos que surgem entidades significativas com influência econômica real no setor”, afirmou. A relevância pode ser tanto nacional quanto regional, mas sempre implica a capacidade dessas empresas em estabelecer padrões produtivos.
Por que isso importa?
- Em 2025, a JBS registrou um lucro líquido de 2 bilhões de dólares, representando um crescimento de 15% em comparação ao ano anterior. Por sua vez, a Cargill Alimentos obteve um lucro líquido de R$ 1,69 bilhão no Brasil após encerrar 2024 com um prejuízo líquido de R$ 1,73 bilhão.
- O setor supermercadista foi identificado como aquele com maior orçamento relacionado a fornecedores envolvidos em trabalho análogo à escravidão: R$ 40 bilhões.
A JBS e a Cargill estão entre as empresas alvos das Ações Civis Públicas promovidas pelo MPT. Isso indica que ambas foram convocadas para negociar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), mas não chegaram a um acordo. O TAC é uma ferramenta extrajudicial destinada a evitar disputas prolongadas na Justiça; permite que a empresa se comprometa a corrigir irregularidades descobertas e implementar medidas preventivas. Ao recusar essa proposta, o caso avança para o Judiciário onde pode resultar em sanções mais severas.
A JBS e a Cargill foram contactadas pela Agência Pública, mas não forneceram resposta até o fechamento desta matéria. Caso haja manifestação posterior, o texto será atualizado.
Empresas não podem alegar desconhecimento, diz MPT
A documentação apresentada pelo MPT demonstra que essas relações comerciais não são meramente episódicas. A metodologia utilizada buscou precisamente evitar distorções; assim foi estabelecida uma conexão entre empresa e fornecedor baseada em cortes temporais relacionados ao período da contratação dos trabalhadores e os meses antes e depois da fiscalização.
O MPT sustenta que grandes corporações não podem alegar ignorância sobre irregularidades nas suas cadeias produtivas. Luciano Aragão ressalta: “não é aceitável que empresas inseridas em setores conhecidos por problemas recorrentes relacionados ao trabalho análogo à escravidão simplesmente afirmem desconhecer tais fatos. Quando há condições claras e obrigação de conhecer os fatos, ignorar torna-se uma escolha.”
Esse raciocínio fundamenta-se na teoria da “cegueira deliberada”, conforme exposta por Aragão; segundo esta teoria, uma empresa que decide ignorar sinais evidentes de irregularidade assume o risco associado à prática ilícita. Em termos das cadeias produtivas isso implica que não basta exigir documentos ou confiar na veracidade das declarações formais dos fornecedores; é imprescindível monitorar efetivamente as condições laborais.
Um dos aspectos mais críticos apontados pelo MPT refere-se exatamente à disparidade entre o discurso corporativo e as ações concretas realizadas. Embora muitas empresas afirmem ter políticas efetivas para controle dos seus fornecedores, frequentemente realizam auditorias apenas anunciadas previamente — permitindo assim ocultação das irregularidades encontradas. Em cadeias repletas de milhares de fornecedores esse tipo de vigilância se mostra insuficiente.
O projeto “Reação em Cadeia” foi idealizado como uma estratégia visando romper com um modelo que embora tenha possibilitado inúmeros resgates nas últimas décadas ainda falha em reduzir significativamente a ocorrência deste problema social. O material ressalta que “o trabalho escravo contemporâneo está profundamente enraizado nas cadeias fornecedoras das grandes empresas e marcas com destaque tanto nacional quanto internacional” além disso enfatiza que “não se trata apenas de casos isolados ou pontuais”, segundo observa o coordenador da iniciativa.
A dinâmica apresentada se repete: um fornecedor é descoberto operando sob condições irregulares, cessa suas vendas para determinados compradores e rapidamente é substituído por outro fornecedor muitas vezes sob as mesmas condições laborais — numa lógica referida pelo próprio MPT como uma simples “troca de CNPJ” nas cadeias produtivas.
