Edson Braga aponta resíduos como nova fronteira de valor na indústria de alimentos

Empresário defende que coprodutos e correntes secundárias sejam tratados como potenciais matérias-primas antes de seguirem para descarte

Cascas, sementes, bagaços, soro, fibras e outras correntes geradas pela indústria de alimentos ainda são frequentemente tratadas como resíduos. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, parte desses materiais pode representar uma fonte de valor ainda pouco explorada.

A análise desloca o tema do campo exclusivo da sustentabilidade para uma discussão mais ampla sobre competitividade, inovação e eficiência industrial.

Dependendo de composição, volume, estabilidade e viabilidade econômica, aquilo que hoje gera custo de destinação pode se transformar em ingrediente, matéria-prima para outra indústria, fonte de energia ou até em um novo negócio.

A pergunta estratégica deixa de ser apenas quanto uma fábrica descarta e passa a ser quanto valor ainda sai dela sem ser aproveitado.

Repensar o conceito de resíduo

Quando determinada corrente passa a ser chamada de resíduo, a tendência é concentrar esforços em removê-la da operação.

Essa classificação pode encerrar cedo demais uma investigação importante.

Uma casca pode conter fibras. Um bagaço pode fornecer compostos funcionais. Uma semente pode possuir óleo. Determinados fluxos podem encontrar aplicações em alimentação animal, fermentação, materiais, bioenergia ou outros processos industriais.

Um dos exemplos mais conhecidos é o soro gerado na produção de queijos.

Aquilo que durante muito tempo representou um problema de descarte tornou-se matéria-prima para concentrados proteicos, isolados, lactose e diversos ingredientes.

O exemplo revela uma transformação fundamental: a tecnologia pode alterar completamente o valor econômico de uma corrente industrial.

Mapa de Valor Residual pode começar com cinco perguntas

Para transformar essa reflexão em ferramenta de gestão, a proposta é acrescentar ao fluxo produtivo um Mapa de Valor Residual.

Não precisa começar como um projeto complexo. Pode nascer de uma análise simples das principais correntes que deixam cada etapa da fábrica.

Para cada uma delas, a equipe pode responder cinco perguntas:

O que está saindo? Identificar o material, sua origem e composição básica.

Quanto é gerado? Medir volume, frequência e regularidade.

Por quanto tempo permanece utilizável? Avaliar estabilidade, armazenamento e necessidade de conservação.

O que existe de valor ali? Investigar presença de proteínas, fibras, gorduras, amidos, açúcares, aromas, pigmentos ou outros componentes.

Quem poderia utilizar isso? Procurar aplicações internas, fornecedores de tecnologia, outras indústrias ou mercados interessados.

A partir dessas respostas, a fábrica consegue separar rapidamente aquilo que merece investigação daquilo que, pelas condições atuais, ainda não apresenta oportunidade viável.

Uma corrente de grande volume, composição relativamente estável e custo elevado de descarte, por exemplo, tende a justificar maior atenção do P&D.

Já um material altamente variável, perecível e disponível em pequena quantidade pode exigir outra solução.

O objetivo não é criar valor artificialmente para tudo que sai da linha.

É descobrir onde existe valor suficiente para justificar uma investigação.

Do mapa para uma decisão industrial

Depois da identificação inicial, o Mapa de Valor Residual pode avançar para três possibilidades.

A primeira é o reaproveitamento interno, quando alguma fração pode retornar a outro processo da própria empresa de forma segura e tecnicamente adequada.

A segunda é a valorização externa, quando outra indústria pode utilizar aquela corrente como matéria-prima.

A terceira é a transformação, quando existe potencial para extrair, concentrar, fermentar ou modificar algum componente antes de levá-lo ao mercado.

Esse processo ajuda a criar uma ordem de prioridade.

Em vez de iniciar dezenas de projetos de economia circular ao mesmo tempo, a empresa pode concentrar recursos nas correntes que apresentam melhor combinação entre volume, potencial técnico, mercado e retorno econômico.

Assim, o Mapa de Valor Residual deixa de ser apenas um levantamento ambiental.

Passa a funcionar como uma ferramenta de prospecção de matérias-primas e oportunidades de negócio dentro da própria fábrica.

Nem tudo precisa voltar a ser alimento

A valorização de coprodutos não significa transformar qualquer corrente novamente em comida.

Segurança, viabilidade tecnológica e economia precisam orientar a decisão.

Alguns materiais podem retornar à alimentação humana. Outros podem gerar mais valor em ração, fermentação, fertilizantes, embalagens, energia ou produtos de base biológica.

Por isso, a pergunta mais adequada é:

qual é o uso responsável de maior valor para esta corrente?

Essa abordagem evita que economia circular se transforme em projetos ambientalmente atraentes, mas economicamente inviáveis.

A lógica pode se aproximar de uma biorrefinaria

Uma mesma matéria-prima pode gerar diferentes frações com valores distintos.

Antes de destinar um coproduto diretamente à geração de energia, por exemplo, pode existir oportunidade de extrair fibras, proteínas, aromas ou outros componentes.

Somente a fração final seguiria para aplicações de menor valor.

Esse raciocínio se aproxima do conceito de biorrefinaria, no qual uma matéria-prima é fracionada em diferentes produtos antes de seu aproveitamento final.

O foco deixa de estar apenas em eliminar uma corrente.

Passa a estar em extrair dela o máximo de valor possível.

Inteligência artificial pode ajudar a encontrar aplicações

Outro ponto relevante é o potencial da inteligência artificial para conectar informações que hoje permanecem dispersas.

Composição química, propriedades funcionais, processos de extração, fermentação, mercados, preços, estabilidade, legislação e logística podem ser cruzados para identificar possibilidades que não seriam evidentes numa análise convencional.

Uma corrente rica em determinada fibra pode ter aplicação em panificação. Outra pode servir como substrato para fermentação. Uma terceira pode fornecer compostos aromáticos.

A inteligência artificial não transforma resíduos sozinha.

Mas pode acelerar uma mudança importante: deixar de procurar apenas onde descartar e começar a procurar onde encaixar.

Fermentação amplia as possibilidades

A fermentação também aparece como uma das tecnologias mais promissoras para ampliar o aproveitamento de correntes secundárias.

Microrganismos conseguem transformar substratos de baixo valor em ácidos, enzimas, aromas, biomassa e outros ingredientes.

Isso significa que determinados coprodutos não precisam ser utilizados exatamente como saem da linha produtiva.

Eles podem alimentar um novo processo.

Quando isso acontece, a fábrica deixa de funcionar apenas como uma sequência linear e começa a se aproximar de um ecossistema produtivo, no qual a saída de uma etapa pode alimentar outra.

Viabilidade continua sendo decisiva

Nem toda possibilidade técnica se transforma em um bom negócio.

Baixo volume, deterioração rápida, custo de transporte, variação de composição e mercado limitado podem inviabilizar um projeto.

Por isso, circularidade também precisa passar pela matemática.

Uma corrente só se transforma efetivamente em matéria-prima quando alguém consegue utilizá-la com segurança, regularidade e resultado econômico.

Em alguns casos, a solução pode estar além dos limites de uma única empresa.

Fábricas próximas podem compartilhar correntes, energia, água de processo ou estruturas de transformação, criando modelos de simbiose industrial.

Uma empresa gera aquilo que outra precisa.

O resultado pode ser uma região produtiva mais eficiente, e não apenas uma fábrica isolada.

Brasil possui espaço para criar novas cadeias

O Brasil apresenta condições especialmente favoráveis para esse tipo de transformação.

O país reúne agricultura em grande escala, biodiversidade e uma indústria de alimentos diversificada.

Café, cacau, laranja, cana, milho, soja, mandioca, frutas, leite e carnes geram não apenas seus produtos principais, mas também grandes volumes de correntes secundárias.

Essa característica pode abrir espaço para uma nova geração de empresas de ingredientes.

Em vez de começar pela busca de uma nova matéria-prima agrícola, algumas oportunidades podem surgir daquilo que o país já produz e ainda aproveita parcialmente.

A fábrica do futuro pode procurar valor antes do descarte

Na visão de Edson Braga, o P&D do futuro não deveria perguntar apenas quais novos ingredientes precisam ser comprados.

Também deveria investigar quais matérias-primas já existem dentro da própria operação sem que seu valor tenha sido plenamente reconhecido.

A fábrica continuará gerando perdas e materiais sem aplicação econômica.

Mas isso não significa que toda corrente deva seguir diretamente para descarte.

Antes da caçamba, existe uma última pergunta:

temos certeza de que isso acabou?

Aquilo que terminou para uma linha de produção pode representar o começo de outro ingrediente, outro processo, outra cadeia ou até outro negócio.

A próxima matéria-prima estratégica da indústria de alimentos talvez não precise ser cultivada novamente. Pode já estar sendo produzida todos os dias dentro das próprias fábricas — e ainda sendo chamada de resíduo.

By Brasilia Hoje

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