Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.
Parece que a sociedade já se acostumou a ouvir, a cada catástrofe climática – como a que está impactando Minas Gerais atualmente –, variações de frases como: choveu em x horas o equivalente ao esperado para o mês inteiro. Essa realidade que antes era rara tem se tornado mais frequente, o que nos leva a refletir sobre a necessidade de nos tornarmos mais resilientes diante desses eventos extremos. Mesmo diante desse cenário, o tão mencionado “novo normal” ainda não se traduziu em esforços significativos para minimizar as tragédias advindas dessas situações. A implementação de políticas públicas para gerenciamento de riscos e desastres ainda não se tornou uma prática comum, afetando centenas de milhares de pessoas todos os anos e a cada hora em diferentes localidades.
Neste momento, nenhum líder político pode alegar que foi pego de surpresa. Apesar de chuvas intensas que caem em volumes inimagináveis, os cientistas alertam há anos sobre as consequências do aquecimento global.
Diante do cenário atual, é evidente que eventos climáticos extremos tendem a se intensificar e a se tornar mais frequentes conforme o planeta aquece, afetando a todos. Refletindo sobre os acontecimentos dos últimos quatro anos, desde Recife e São Sebastião até a zona da mata de Minas Gerais, é fundamental considerar que 2024, 2023 e 2025 foram os três anos mais quentes registrados até então.
Diante do histórico de ocorrências em cidades gaúchas há pouco menos de dois anos, por que ainda não priorizamos ações preventivas em detrimento das ações paliativas? Por que não colocamos a adaptação às mudanças climáticas como a principal agenda de prefeitos e governadores? Não seria o momento de cobrar essas ações nas próximas eleições?
O relatório recentemente divulgado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) revela que no ano passado, desastres naturais afetaram diretamente mais de 336.000 pessoas em todo o Brasil. O órgão, que surgiu após os deslizamentos na região serrana do Rio de Janeiro no início de 2011, tragédia que resultou em mais de 900 mortos, têm buscado auxiliar os municípios na preparação para enfrentar esses problemas.
Apesar dos avanços no monitoramento e alertas, a resposta a esses eventos ainda é insuficiente. Entre 2020 e 2023, aproximadamente 8,7 milhões de pessoas foram desabrigadas ou desalojadas em decorrência de inundações no país. Nesse período, foram registrados 7.539 desastres climáticos, representando um aumento de 222,8% em relação aos 2.335 eventos relatados na década de 1990. Além disso, a proporção de municípios afetados subiu de 27% para 83%.
É importante frisar que o que transforma uma chuva intensa em uma tragédia não é apenas a força da natureza, mesmo sendo um fator determinante, mas sim a ocorrência desse fenômeno em regiões vulneráveis, com população vivendo em áreas de risco, como encostas ou margens de rios, e em cidades desprovidas de planos de contingência adequados para enfrentar situações de calamidade.
O aumento da incidência de chuvas extremas, fruto das mudanças climáticas que contribuímos para gerar, realça a necessidade de estarmos preparados. Juiz de Fora, por exemplo, uma das cidades impactadas recentemente, recebeu diversos alertas do Cemaden no ano passado, mesmo que as chuvas dessa semana tenham sido atípicas. O órgão monitora atualmente 1.133 municípios com histórico de desastres no Brasil.
O meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, explicou que tempestades intensas em curtos períodos, como as que afetaram Juiz de Fora recentemente, são desafiadoras de prever. No entanto, conscientes da crescente frequência desses eventos, é crucial considerar a previsão dessas ocorrências nos planejamentos. A inércia diante de catástrofes cada vez mais recorrentes não pode mais ser aceita como desculpa.
As cidades devem focar em medidas preventivas para lidar com eventos extremos e se adaptar às mudanças climáticas. Planos de redução de riscos, como estabilização de encostas, desassoreamento de rios, reflorestamento e revisão dos planos diretores urbanos são algumas das ações recomendadas por Seluchi. Uma defesa civil bem articulada, com recursos humanos e logísticos adequados, também é essencial para responder de forma eficiente a essas situações.
Receber alertas de SMS sobre chuvas severas iminentes é relevante, mas é igualmente importante que a população saiba como reagir e para onde se dirigir em caso de emergência. A transparência e divulgação dos planos de contingência são cruciais para garantir a segurança da população em momentos críticos.
Elaborar e treinar a população em planos de contingência durante a estação seca será fundamental para garantir uma resposta adequada diante dessas tragédias naturais, que infelizmente tendem a se tornar mais frequentes e intensas. As cidades devem priorizar a resiliência e a capacidade de resposta diante de eventos extremos para proteger seus cidadãos da melhor maneira possível.
É alarmante que, ao enfrentar os extremos provocados pelas mudanças climáticas, o Brasil enfrente crises tanto de secas como de chuvas intensas, demonstrando os desafios que a população e as autoridades enfrentam. O aumento de eventos climáticos extremos é uma consequência direta do aquecimento global e requer ação imediata por parte de todos os setores da sociedade.
