Os eventos climáticos já não se restringem apenas aos jornais, mas também têm sua presença garantida nos exames de admissão das principais universidades brasileiras. O ano de 2025 foi classificado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) como um dos mais severos em termos climáticos das últimas décadas, marcado por recordes de calor e longas secas. Durante esse período, o órgão documentou 1.493 incidentes relacionados a chuvas, incluindo inundações e deslizamentos, nas localidades sob sua supervisão.
O fenômeno El Niño, cuja formação foi confirmada em junho pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e pela NOAA, está previsto para se intensificar no segundo semestre, com chances de alcançar a categoria “muito forte”.
Eventos extremos como as ondas de calor que levaram Nova Xavantina (MT) a registrar 43,3 °C no final de setembro e ciclones extratropicais no Sul do Brasil mantêm os fenômenos climáticos na pauta da mídia. Tais acontecimentos não apenas evidenciam a relevância do tema nas discussões públicas, mas também sua importância nas questões atuais abordadas nos vestibulares.
Muitas provas têm adotado uma abordagem multidisciplinar ao abordar os impactos das mudanças climáticas, interligando conhecimentos de diversas áreas como geografia, história, biologia e física, além de questões sociais e econômicas.
A Fuvest 2025, responsável pelo vestibular da Universidade de São Paulo, utilizou as enchentes que ocorreram no Rio Grande do Sul em maio de 2024 para solicitar a transformação gráfica de uma função cosseno utilizando ondas de rádio AM. A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) também trouxe à tona o tema das enchentes gaúchas em sua primeira fase.
Um evento pluvial como uma enchente pode abranger várias disciplinas: ciências naturais (ciclo da água e características do solo), geografia (ocupação urbana), matemática (análise de dados pluviométricos) e cidadania (direitos e políticas públicas), conforme explica Marcos Benfica, coordenador pedagógico da Verbum Educação.
Confira a seguir uma análise detalhada sobre como os desastres climáticos podem ser abordados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e em outros vestibulares!
Geografia e impactos socioambientais
Em 2026, o debate sobre a emergência climática ganhou novos contornos diante das discussões científicas acerca da possibilidade de um “super” El Niño – um episódio com intensidade superior ao padrão habitual.
Dessa forma, os vestibulares podem cobrar conceitos geográficos sob diferentes perspectivas: desde a identificação das características do fenômeno até a relação entre o El Niño e seus efeitos sobre os padrões de chuva, temperaturas e eventos extremos em várias regiões globais. Além disso, há uma conexão direta com as mudanças climáticas devido à crescente intensidade desses fenômenos.
Fabiana Pegoraro, coordenadora de geografia do Colégio Rio Branco, ressalta que é essencial para os candidatos não apenas compreender o funcionamento do El Niño e La Niña, mas também os seus impactos socioambientais.
“A ocorrência desses fenômenos provoca alterações na evaporação e na liberação de calor das águas oceânicas, afetando a umidade atmosférica, as temperaturas e o sistema circulatório das massas aéreas, o que impacta diretamente na distribuição das chuvas”, explica ela.
No Brasil, é comum que o El Niño resulte em secas severas e altas temperaturas nas regiões Norte e Nordeste enquanto provoca chuvas intensas nas áreas Sul e Sudeste. Assim sendo, as questões dos vestibulares podem abordar desigualdades socioespaciais e a vulnerabilidade das comunidades frente a eventos extremos já que os efeitos não são igualmente distribuídos entre a população.
Pessoas que vivem em comunidades indígenas ou ribeirinhas podem enfrentar dificuldades devido à diminuição dos níveis dos rios. Por outro lado, habitantes de áreas urbanas com menor infraestrutura estão mais suscetíveis a inundações e deslizamentos que afetam seu acesso à moradia adequada, transporte escolar e serviços médicos.
Biologia, química e física
No âmbito científico, as perguntas geralmente exigem que os alunos identifiquem relações causais entre o fenômeno apresentado na questão e suas consequências nos diversos ecossistemas para formular argumentos sólidos além do conteúdo dos livros.
Paulo Allil, coordenador de biologia do Colégio Rio Branco, afirma que os vestibulares mais concorridos costumam abordar temas contemporâneos como desastres climáticos sob novas perspectivas. Ele destaca que o estudante deve cultivar uma visão ampla e sistêmica capaz de formular hipóteses e propor soluções práticas.
Rafael Lucena Lomazi, professor de biologia do Colégio Ábaco, acrescenta que eventos recentes podem ser explorados interdisciplinarmente relacionando o aumento das temperaturas às queimadas no Cerrado ou à fragmentação dos habitats. Conceitos como efeito estufa ou derretimento das geleiras também podem ser integrados nessa análise.
No contexto das ondas de calor ou secas extremas relacionadas aos impactos sobre fauna e flora poderia haver uma questão apresentando um gráfico sobre elevações na temperatura global ou um mapa ilustrando a intensidade dos fenômenos do El Niño solicitando que os candidatos identificassem potenciais consequências para a produção alimentar ou para agentes polinizadores essenciais para agricultura.
O professor ainda enfatiza que esses tópicos possibilitam conexões com disciplinas como química e física ao discutir temas como derretimento das geleiras relacionado ao calor latente ou expansão térmica. Manter-se informado sobre as discussões referentes à emergência climática auxilia os estudantes na interpretação adequada das questões ligadas aos acontecimentos atuais em sala de aula.
Matemática
A ocorrência de desastres climáticos transforma informações frequentemente veiculadas na mídia em dados passíveis de análise matemática. Dessa maneira, questões nos vestibulares podem exigir cálculos envolvendo porcentagens, razões/proporções, médias ou variações.
Numa prova específica, o aluno pode se defrontar com gráficos comparativos entre volumes pluviométricos registrados versus médias históricas ou tabelas mostrando o avanço das queimadas ou estatísticas sobre pessoas afetadas por inundações.
Tainara Dias, executiva da Casio Educação dedicada ao setor acadêmico financeiro explica que para se preparar adequadamente é vital desenvolver hábitos que envolvam observar como os números aparecem nas notícias: quais períodos são analisados? Qual unidade foi utilizada? Que escala foi aplicada nos gráficos?
A executiva observa ainda que um erro comum é examinar números ou porcentagens isoladamente sem compreender suas bases comparativas. Em questões desse tipo interpretar dados corretamente é tão crucial quanto realizar cálculos matemáticos adequados.
História, sociologia e atualidades
Diante da conjuntura atual global é inviável considerar questões ambientais sem relacioná-las ao contexto histórico. Universidades vêm reavaliando seus currículos para integrar melhor conteúdos clássicos com temas ambientais relevantes.
Analisar as mudanças climáticas sob diferentes ângulos é fundamental para entender suas ramificações. As questões ambientais estão intimamente ligadas a processos históricos como a Revolução Industrial; além disso refletem desigualdades sociais , econômicas, políticas – com diferentes impactos sobre populações variadas durante eventos extremos.
Acompanhando atualidades conectadas a esses processos históricos torna-se evidente que mudanças climáticas não são meramente uma questão ambiental: elas se entrelaçam com contextos históricos e sociais significativos.
“Desastres climáticos evidenciam um processo global originado pelos problemas urbanos trazidos pela Revolução Industrial. Se inicialmente aconteciam localmente em cidades europeias industrializadas hoje debatemos inter-relações entre extração produtiva mundialmente distribuída com ampla desvantagem ao Sul Global. Ao longo do século XX empresas transferiram unidades fabris para essa região buscando mão-de-obra mais barata juntamente à regulamentação ambiental menos rígida”, comenta Vitor Mizuki professor na Beacon School.
Analisar as intersecções entre economia política geopolítica desigualdade social racismo ambiental emissões carbônicas novos acordos climáticos pode abrir caminhos para compreensões mais complexas sobre essas temáticas.
Por Victória Gorski
