Delúbio Soares, candidato goiano, declara: “Repetiria minha trajetória repleta de acertos e falhas

Na política brasileira, poucos demonstram a lealdade de Delúbio Soares. O ex-tesoureiro do PT enfrentou críticas severas e atuou como um “escudo” para o partido durante períodos conturbados, como os escândalos do Mensalão e da Lava Jato. Ele foi preso em duas ocasiões, expulso da legenda que ajudou a fundar e se tornou alvo de ataques internos.

Apesar de todas as adversidades, Delúbio nunca fez críticas públicas ao PT, recusou-se a fazer delação premiada – mesmo quando colegas o implicaram – e retornou à filiação partidária. Este ano, ele está novamente na corrida política como candidato a deputado federal por Goiás, contando com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Embora Delúbio afirme não ter recebido um convite formal de Lula, alegando que o presidente tem “mais o que fazer”, Lula expressou em eventos recentes seu desejo de ver figuras históricas do petismo retornarem às eleições. O ex-tesoureiro se juntará a outros nomes conhecidos, como o ex-ministro José Dirceu e João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara, ambos candidatos a deputado federal por São Paulo. Os três se afastaram das atenções públicas durante anos devido a investigações.

Delúbio afirma não nutrir “mágoa nem ódio”, considerando as experiências difíceis como parte natural da política. Ele se vê mais como “um lutador” pelo Brasil do que um mártir. Se tivesse a chance de reviver o passado, não mudaria nada: “Entre erros e acertos, eu faria tudo de novo”, disse em entrevista à Agência Pública.

“Não me envergonho do meu passado. Sinto orgulho dele, pois contribuí para a construção de uma sociedade mais igualitária”, declara.

Por que isso importa?

  • A candidatura de Delúbio Soares nestas eleições representa o retorno de figuras históricas do PT ao cenário eleitoral após escândalos de corrupção como o Mensalão e a Lava Jato. José Dirceu e João Paulo Cunha também estão entre os que devem se candidatar este ano;
  • Delúbio recusou um acordo de delação premiada e nunca criticou publicamente o PT ou Lula, ganhando fama de “mártir” entre os militantes.

O ex-tesoureiro relata ter enfrentado 144 processos criminais, sem contar as ações nas áreas cível, tributária e eleitoral. Em 2012, foi condenado no julgamento do Mensalão por corrupção ativa e cumpriu pena em regime fechado e semiaberto até ser agraciado com um indulto em 2016. Na operação Lava Jato, foi preso em 2018 sob acusações de lavagem de dinheiro, mas foi libertado após uma mudança na interpretação do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre prisões em segunda instância. Em 2023, sua condenação foi anulada ao ser considerada inadequada para julgamento pela Justiça Federal de Curitiba.

Atualmente livre de pendências judiciais e com seus direitos políticos restabelecidos, Delúbio se prepara para seu primeiro desafio eleitoral desde sua volta. Ele tentou se candidatar em 2010, mas foi impedido pelo próprio PT após seis anos afastado entre 2005 e 2011. Nas eleições seguintes, suas condenações impediram sua candidatura.

Em uma videochamada com a Agência Pública, vestindo uma camisa polo vermelha e chapéu panamá, Delúbio falou do saguão de um hotel em Brasília. No dia anterior, ele participou da Marcha dos Trabalhadores organizada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), entidade que lhe deu suporte durante seu período fora da vida pública enquanto cumpria pena semiaberta na penitenciária da Papuda; atualmente ele atua como assessor da presidência da CUT.

Ao contrário da percepção pública de ostracismo político, Delúbio continuou ativo nos círculos internos do petismo e dos movimentos sociais ao seu redor – especialmente por conta de sua parceira Mônica Valente, que ocupa cargos importantes no Foro de São Paulo e na Fundação Perseu Abramo.

Nas reuniões do partido, ele é recebido calorosamente pelos militantes devido à sua lealdade ao longo dos anos – diferentemente do ex-ministro Alberto Palocci, visto como traidor por fazer delação premiada na Lava Jato. Enquanto Palocci é reprovado pela militância petista, Delúbio é considerado um mártir.

O escudo do escândalo

Ao referir-se a si mesmo, Delúbio costuma usar seu nome completo na terceira pessoa. Quando fala sobre as perseguições políticas que afirma ter sofrido, menciona outros líderes: “Houve várias mentiras contra Delúbio Soares, contra José Dirceu e contra Lula”. Ao tratar sobre o Mensalão – acusado de comprar apoio parlamentar –, evita colocar-se no centro das acusações: “A denúncia do deputado Roberto Jefferson dizia que o tesoureiro do PT era eu”, esclarece.

Este escândalo ocupou as manchetes por quase uma década desde suas primeiras denúncias até as condenações subsequentes. Representou um teste crucial para a lealdade de Delúbio ao partido.

Ele assumiu total responsabilidade pela situação envolvendo o caixa 2 do partido. Sua defesa argumenta que os recursos não declarados eram contribuições feitas por empresários para cobrir despesas eleitorais normais e não tinham relação com compra direta de votos. Ele considerava essa prática comum na política brasileira.

A postura firme permitiu que Lula se distanciasse parcialmente das controvérsias iniciais durante seu primeiro mandato: “Quero dizer a vocês com franqueza: sinto-me traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento”, declarou na época sem mencionar nome algum; todos entenderam que se referia a Delúbio. Dois meses depois daquela declaração, o ex-tesoureiro foi expulso do PT.

Delúbio não demonstrou sinais de vulnerabilidade diante disso. Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Mensalão que durou mais de nove horas, afirmou não se considerar um traidor: “Respeito muito o presidente Lula; como fiel seguidor dele não questiono suas opiniões”, destacou. “Minha trajetória política não corresponde a isso. Estou sendo bastante atacado mas não me vejo nem como traidor nem traído.”

Hoje ele considera todo o episódio uma “grande fake news” criada para desacreditar o projeto político do PT em tempos pouco favoráveis. “A denúncia falava em R$ 30 mil para cada deputado; hoje cada parlamentar tem acesso a R$ 102 milhões em emendas”, observa ele. “Uma mentira contada repetidamente pode prejudicar mesmo sem se tornar verdade; Sócrates disse que mentiras não duram longas existências.” Essa citação filosófica é repetida por ele durante sua conversa.

No decorrer da conversa que durou quase duas horas, defendeu os compromissos assumidos por Lula para um novo mandato como se fossem suas próprias metas pessoais; demonstrando uma fusão entre sua identidade pessoal e a representação partidária. 

Sua bandeira é clara: apoiar Lula na governança do Brasil e colaborar nas próximas eleições presidenciais. “Meu principal objetivo é ajudar o presidente Lula a governar”, enfatizou. 

Dentre suas propostas individuais estão ideias variadas – desde melhorias nas rodovias goianas até ambições maiores como federalização da educação infantil e novas opções de financiamento habitacional para famílias carentes.

No entanto, destaca principalmente seu desejo de unir forças com o governo federal no enfrentamento ao negacionismo promovido por pré-candidatos como Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD). Ele criticou ainda um acordo feito pelo governo goiano com os Estados Unidos para exploração das terras raras localizadas no estado: “Essas terras pertencem à União; não vamos permitir essa exploração.”

Velha guarda quer “fechar o ciclo”

Em resposta às críticas sobre falta de renovação no PT ao apoiar nomes ligados à década de 1990 nas eleições futuras, Delúbio argumenta ser necessário “fechar um ciclo”. “Estou voltando assim como Zé Dirceu; Lula também é candidato novamente. É essencial concluir esse ciclo”, defende.

“Devemos transformar o Brasil em uma nação desenvolvida. Nos últimos três anos Lula trabalhou arduamente nessa recuperação: restabeleceu programas sociais essenciais como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida; melhorou infraestrutura rodoviária; está duplicando estradas importantes; revitalizando portos e aeroportos,” elencou ele.

“Sobre renovação geracional: não podemos simplesmente pegar alguém da academia ou dos movimentos sociais e esperar que essa pessoa assuma liderança imediatamente; essa construção leva tempo,” acrescenta.

Para ele, esse receio dos jovens surge devido aos destinos sombrios vividos pelas lideranças antigas do partido – citando sua própria experiência pessoal. “Os jovens observam que as figuras proeminentes no PT enfrentaram consequências severas; muitos foram presos longamente,” reflete ele sobre essa aversão à política atual.
“Na mesma data em que deixei a prisão encontrei-me com Lula; conversamos sobre seguir adiante com dignidade.”

By Brasilia Hoje

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