Saul Klein, herdeiro das Casas Bahia, enfrenta acusação de exploração sexual

Na segunda-feira, 11 de maio, a 2ª Vara Criminal de Barueri aceitou parcialmente a denúncia do Ministério Público de São Paulo, resultando na transformação de Saul Klein, herdeiro do fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, em réu por crimes relacionados à exploração sexual de mulheres e por envolvimento em organização criminosa.

Esse desdobramento remete a um esquema de aliciamento que, conforme relatos de diversas vítimas, se perpetua por gerações, refletindo um modus operandi que teve início com Samuel Klein, conhecido como o “rei do varejo”, proprietário das Casas Bahia, como evidenciado por uma série de reportagens da Agência Pública em 2021.

Além disso, o UOL realizou uma extensa cobertura sobre o caso envolvendo Saul Klein, apresentando relatos das mulheres que formalizaram as denúncias e pormenores sobre a estrutura criada para recrutar essas vítimas nas mansões do empresário. A situação foi abordada também no documentário intitulado “Saul Klein e o império do abuso”.

Por que é relevante?

  • A acusação contra Saul Klein conta com testemunhos de pelo menos 14 vítimas.
  • O empresário é um dos proprietários do time de futebol Ferroviária, localizado em Araraquara, interior de SP, e tentou se candidatar (sem sucesso) ao cargo de vice-prefeito de São Caetano do Sul, conforme informações da Folha de S.Paulo.

As alegações contra Saul Klein

A denúncia contra Saul Klein inclui uma variedade de delitos que vão desde favorecimento à prostituição e exploração sexual de pessoas vulneráveis até agravantes como violência física ou ameaças, aliciamento por meio de engano e organização criminosa.

A decisão judicial destaca que “os elementos colhidos nos depoimentos (…) também revelam um ambiente contínuo de exploração sexual, mencionando a habitual participação de certas intermediárias e uma padronização comportamental que submete psicologicamente as mulheres envolvidas”, conforme tramita em segredo de Justiça.

Pelo conteúdo da decisão, Klein enfrenta acusações relacionadas à participação em organização criminosa e favorecimento da prostituição ou exploração sexual envolvendo crianças e adolescentes ou indivíduos vulneráveis. Além disso, ele é acusado com agravantes específicas (como uso de violência ou fraude) e tráfico humano envolvendo menores.

Ainda segundo a decisão judicial, os depoimentos indicaram uma “dinâmica repetitiva” no recrutamento de mulheres e adolescentes sob promessas de trabalho em eventos promocionais. Essa estrutura incluía intermediárias específicas que conduziam as vítimas para flats e propriedades associadas ao investigado, pagamentos em dinheiro, imposição de comportamentos previamente orientados e exploração sexual organizada em ambientes controlados.

“Era necessário mentir sobre a idade; tínhamos que dizer que tínhamos 15 anos”

Uma das vítimas relatou à Agência Pública que chegou a São Paulo em 2014 atraída por um anúncio no Facebook sobre um desfile internacional. Ao desembarcar no aeroporto, foi recebida por um motorista que a levou para o Flat Sequoia em Alphaville junto com outra mulher. Ambas eram novatas na situação. “Fui enganada. Só descobri que era algo relacionado ao filho do chefe das Casas Bahia depois.”

A pressão psicológica e um cachê prometido de R$ 3 mil levaram Luana* (nome alterado para garantir sua identidade) a participar de um teste realizado em outro local. “Tive que me despir para ele; estava muito atordoada enquanto ele escolhia outra moça que estava comigo naquele momento.”

Ela narra ter visto Saul praticar sexo anal sem proteção com sua colega. “A garota saiu do quarto chorando porque ele a machucou bastante.” Luana relembra uma festa na mansão de Saul em outra área de Alphaville onde cerca de 20 mulheres estavam presentes durante todo o fim de semana. “Acordávamos juntos, tomávamos café com ele, íamos à academia e depois às festas temáticas à noite.”

Segundo ela, todas as noites três mulheres eram escolhidas para passar a noite com Saul na mansão. “No sábado, quando fui selecionada para subir ao quarto dele, comecei a me sentir mal devido à bebida consumida durante o dia.”

A equipe dele questionou se ela estava grávida: “Me disseram que se achasse que estava grávida não poderia sair até resolver isso. Não importava se era dele ou não; teria que interromper. Eu disse que não estava grávida; estava apenas mal por causa da bebida. Mesmo assim fui forçada a fazer um teste ali mesmo.”

Ao entrar no quarto, Luana foi instruída a não olhar para o rosto do empresário nem se comportar como adulta. “Precisávamos falar como crianças; tínhamos que fingir ter 15 anos.”

A condição dela ajudou-a a evitar atos sexuais indesejados: “Estava tão mal que não consegui seguir adiante. Uma das garotas mais velhas mandou eu dormir no chão do banheiro até o dia seguinte enquanto ela e outra novata estavam com ele na cama.” Luana afirma não ser garota de programa nem fazer parte das denúncias contra Saul na Justiça.

A posição da defesa de Saul Klein

Em comunicado oficial, Alberto Zacharias Toron, advogado responsável pela defesa de Klein, afirmou que “a decisão judicial corroborou parcialmente o entendimento já manifestado pelo próprio Ministério Público ao excluir as acusações relacionadas a estupro e cárcere privado”. O defensor ainda comentou: “Quanto às acusações restantes, o juiz ressaltou a relevância da argumentação defensiva indicando que os relacionamentos eram consensuais dentro do contexto conhecido como ‘sugar daddy’ e ‘sugar baby’ [encontros voluntários com benefícios econômicos], enfatizando que essa questão deve ser explorada mais detalhadamente durante o processo judicial. A defesa está confiante na rejeição total das acusações ao final deste caso”.

Anteriormente, em 2023, Saul Klein já havia sido condenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) ao pagamento de R$ 30 milhões devido ao tráfico humano e exploração sexual. Segundo informações divulgadas pelo MPT, ele atraía jovens em condições financeiras difíceis sob promessas falsas relacionadas a trabalho como modelo. O valor determinado será revertido para danos morais coletivos beneficiando três instituições sem fins lucrativos.

Samuel Klein: pai de Saul morreu sem condenação criminal

A dinâmica apresentada no processo contra Saul não é nova na história familiar. Samuel Klein faleceu em 2014 sendo alvo anterior dessas mesmas acusações reveladas pela Pública. Em abril de 2021 foi veiculado um especial chamado “Caso K”, detalhando como o patriarca teria mantido por várias décadas um esquema para aliciar crianças e adolescentes nas instalações icônicas das Casas Bahia em São Caetano do Sul além de outros locais como Santos e Angra dos Reis. Em 2024 será lançado o podcast “Caso K – A História Oculta do Fundador da Casas Bahia”, trazendo novos detalhes sobre essa narrativa – uma segunda temporada está prevista para ser lançada em 2027.

A investigação promovida pela Pública trouxe à tona relatos impactantes sobre meninas levadas à presença do patriarca Samuel Klein. A apuração evidenciou que até mesmo a estrutura empresarial facilitava esses abusos com a cumplicidade dos funcionários responsáveis pela logística dos encontros. Essa cobertura aprofundada não apenas trouxe visibilidade ao caso mas também desencadeou desdobramentos legais significativos como o projeto denominado “PL Caso Klein”, proposto pela deputada Sâmia Bomfim (PSOL), visando ampliar os prazos prescricionais aplicáveis às ações reparatórias decorrentes dos crimes sexuais.

No mês passado (março) Mariama Correia editora da Pública, participou da tradicional Marcha das Mulheres no ABC paulista realizada em São Caetano do Sul onde houve protesto diante da sede das Casas Bahia localizada na rua Samuel Klein. O trajeto escolhido teve relação direta com as graves acusações feitas contra seu fundador relacionadas à exploração sexual infantil.

“É uma ofensa para todas as mulheres ter essa rua nomeada após alguém com esse histórico; é desrespeitoso com as mulheres desta cidade”, declarou Neusa Raineri coordenadora da Frente Regional do ABC Contra Violência à Mulher durante articulação junto aos coletivos feministas locais.

No momento atual existe uma petição ativa pedindo à prefeitura local mudanças nos nomes da rua Samuel Klein para rua 8 de março – homenageando assim a luta pelas mulheres – bem como renomear o Centro Médico Especializado no bairro atualmente nomeado após o empresário para Maria Odília Teixeira, reconhecida como a primeira mulher negra médica no Brasil.

By Brasilia Hoje

Related Posts