Uma erupção vulcânica na Islândia gera uma névoa misteriosa que se espalha pela Europa, devastando lavouras e despertando a curiosidade de Benjamin Franklin

Durante o verão de 1783, uma névoa seca começou a se espalhar por várias regiões da Europa, obscurecendo a luz solar e exalando um odor peculiar. Embora o fenômeno parecesse surgir sem explicação, sua verdadeira origem estava localizada a mais de mil quilômetros de distância, na Islândia, onde a fissura de Laki desencadeou uma das erupções vulcânicas mais devastadoras já documentadas.

Detalhes da erupção na fissura de Laki

A erupção teve início em 8 de junho de 1783, quando uma extensa série de fissuras se abriu no sul da Islândia. Ao longo de vários meses, fontes eruptivas expeliram imensas quantidades de lava e gases para a atmosfera. Apesar do volume considerável de rocha derretida, o verdadeiro perigo que se espalharia além da ilha era quase imperceptível.

A fissura Laki emitiu uma quantidade colossal de dióxido de enxofre, bem como compostos fluorados e outras substâncias. Parte desses gases reagiu na atmosfera, dando origem a aerossóis de ácido sulfúrico. Assim nasceu uma poluição vulcânica capaz de atravessar vastas distâncias e alterar o céu em regiões que estavam a milhares de quilômetros do vulcão.

Impactos locais dos gases na Islândia

Nas proximidades da erupção, a contaminação afetou pastagens, fontes hídricas e animais. Os compostos fluorados que se depositaram sobre a vegetação resultaram no envenenamento do gado, enquanto diversas plantas e musgos pereceram. Dada a forte dependência econômica da Islândia da agricultura e da criação animal, essa sequência levou rapidamente a uma grave crise alimentar.

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Registros históricos e investigações posteriores revelam a magnitude dessa tragédia. A perda dos rebanhos foi imensa, a fome se alastrou e doenças começaram a atingir uma população debilitada. Estima-se que aproximadamente um quinto dos moradores da Islândia tenha falecido nos anos relacionados à chamada fome provocada pela névoa.

Como os efeitos da erupção chegaram tão longe?

Correntes atmosféricas transportaram essa poluição para além das fronteiras islandesas. Em junho de 1783, a névoa já era visível em diversos pontos da Europa e até o final daquele mês havia registros dela em grande parte do continente. O Sol surgia avermelhado e a visibilidade diminuía mesmo na ausência de nuvens comuns no céu.

Os relatos variavam conforme as localidades, mas todos mostravam como uma erupção distante poderia representar um problema continental. Entre os efeitos documentados naquela época estavam:

  • Folhas e plantas apresentavam sinais anormais de queimaduras ou secagem.
  • Culturas agrícolas foram prejudicadas em várias partes do norte e oeste europeu.
  • Habitantes relataram odores sulfúricos, dores de cabeça e dificuldades respiratórias.
  • O Sol parecia fraco ou avermelhado ao ser observado através da névoa persistente.

Assista ao vídeo do canal no YouTube ERA MEDIEVAL, que detalha como a Islândia quase enfrentou sua ruína em 1783.

A observação de Benjamin Franklin sobre a névoa

Benjamin Franklin estava na Europa durante este período e notou o fenômeno atmosférico. Em um texto datado de 1784, ele descreveu uma névoa seca que envolvia tanto a Europa quanto parte da América do Norte. Franklin percebeu que essa camada estava reduzindo os raios solares e questionou se haveria alguma relação com atividades vulcânicas na Islândia.

Ainda que não tenha mencionado corretamente o nome Laki, citou o Hekla e outro vulcão islandês como possíveis fontes do fenômeno. Mesmo assim, sua hipótese foi impressionante para aquele tempo. Ele acreditava que a fumaça poderia ter sido dispersa pelos ventos sobre amplas áreas, aproximando-se das explicações que as pesquisas atuais forneceriam sobre esse evento.

A transformação na percepção das erupções vulcânicas

A narrativa sobre Laki demonstra que um vulcão não precisa inundar cidades com lava para causar grandes desastres. Gases invisíveis podem percorrer continentes, contaminar ambientes inteiros, impactar colheitas e alterar o céu milhares de quilômetros longe da fonte emissora, gerando consequências além das fronteiras conhecidas.

Mais de duzentos anos após esses eventos, essa ocorrência ainda serve como um alerta significativo. Quando uma grande erupção é noticiada novamente, é essencial ir além das imagens dramáticas de lava: observe também as mudanças na atmosfera, pois alguns dos impactos mais relevantes podem surgir exatamente onde nossos olhos não conseguem ver.

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By Brasilia Hoje

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