Na nova fase do negacionismo climático, que pode ser considerada 2.0, a negação da existência do aquecimento global não é mais tão absoluta. Embora ainda haja vozes como as de Donald Trump que sustentam essa perspectiva, o foco atual está em desacreditar, obstruir e atrasar a implementação de soluções, especialmente no que diz respeito às energias renováveis. Discursos comuns afirmam que a tecnologia disponível é insuficiente ou excessivamente cara, ou ainda sugerem que sua adoção poderia comprometer o desenvolvimento. Esse comportamento retarda a transição energética em um momento crítico, quando ela deveria avançar mais rapidamente do que nunca, mas cientistas estão se mobilizando para enfrentar esse desafio.
Um dos principais resultados da Primeira Conferência para a Transição Longe dos Combustíveis, que ocorre em Santa Marta, Colômbia, desde 24 de abril, é a criação de um painel científico internacional dedicado à transição energética global. Baseado em São Paulo, o painel tem como objetivo colaborar mais estreitamente com governos para acelerar esse processo. A expectativa é que este painel opere por um período de cinco anos.
A proposta surgiu a partir de uma solicitação feita pela presidência brasileira da COP30 ao climatologista Carlos Nobre e ao pesquisador Johan Rockström, do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático. O intuito é oferecer informações científicas ágeis que ajudem a moldar políticas públicas voltadas para a redução do uso de combustíveis fósseis.
Embora existam amplos conhecimentos científicos sobre os riscos associados à inação climática e as vantagens das energias renováveis – que abrangem desde questões climáticas até saúde e segurança energética –, ainda há muita resistência à mudança.
O novo painel visa garantir que as evidências científicas estejam mais alinhadas com os planos governamentais e setoriais para acelerar a descontinuação dos combustíveis fósseis. Isso é essencial para evitar que a temperatura média do planeta supere 1,5 °C. Apesar de essa meta estar prestes a ser ultrapassada, os cientistas alertam sobre a necessidade de ações rápidas para limitar essa elevação da temperatura nos próximos anos. Cada décimo de grau conta para a segurança do planeta.
<pDurante o lançamento do painel, Irene Vélez Torres, ministra do Meio Ambiente da Colômbia, destacou um crescente descompasso entre ciência e decisões governamentais: “Isso ocorre devido ao negacionismo em relação aos impactos das mudanças climáticas e à forte pressão econômica e política que distorce o raciocínio científico nas decisões governamentais”, afirmou em coletiva de imprensa.
A ministra lidera as discussões na conferência em Santa Marta, um esforço político projetado também para contornar as limitações observadas nas conferências climáticas da ONU, como a COP30 realizada em Belém no ano anterior. Essas conferências têm falhado em garantir compromissos mais firmes dos países para abandonar os combustíveis fósseis, principais responsáveis pelo aquecimento global.
Conferência em Santa Marta: 60 países debatem transição energética
Em Santa Marta, representantes de cerca de 60 nações se reúnem com 400 cientistas e membros da sociedade civil, incluindo populações indígenas e afrodescendentes. O evento se estende até quarta-feira, dia 29, com o objetivo de explorar caminhos para reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis.
A ministra colombiana declarou: “O lançamento deste painel nesta conferência simboliza o compromisso genuíno dos países presentes em retornar à ciência como base fundamental para nossas decisões.”
Dentre as inovações propostas pelo painel está a liderança por parte de especialistas no setor energético – um dos co-presidentes é Gilberto Jannuzzi, professor da Unicamp – além de economistas. Os outros co-presidentes são Vera Songwe (Camarões), copresidente do Painel de Especialistas de Alto Nível em Financiamento Climático; e Ottmar Edenhofer (Alemanha), diretor do Instituto Potsdam.
Rockström destaca que uma das principais metas deste painel científico será identificar formas de superar os desafios econômicos e sociais enfrentados pelos países na busca por uma transição ordenada e acelerada longe dos combustíveis fósseis. “Utilizaremos métodos recentes e avançados na revisão das políticas para descobrir quais combinações são mais eficientes em diferentes contextos.”
O pesquisador sueco é uma voz proeminente na academia sobre os limites planetários e tem colaborado com Carlos Nobre na fundação deste painel. Juntos lideraram iniciativas desde a COP30 para integrar ciência às negociações climáticas.
No evento realizado em Belém, coordenaram um espaço dedicado à ciência e realizaram uma ação diplomática ao distribuir panfletos aos negociadores ressaltando a urgência da contenção do aquecimento global dentro da meta de 1,5 °C através da criação de planos claros e cronogramas para eliminar o uso de combustíveis fósseis.
Rockström enfatiza que o novo painel buscará utilizar compilações científicas já existentes – com destaque ao IPCC – mas irá produzir relatórios com maior agilidade e aplicabilidade local. “Enquanto o IPCC publica suas análises a cada seis ou sete anos, nós faremos atualizações anuais.”
“Nosso enfoque não é criar um novo consenso científico como faz o IPCC; buscamos fornecer dados práticos que ajudem diferentes países – seja Colômbia, China ou Nigéria – a traçar metas alcançáveis até 2030.”
A previsão é que o primeiro relatório desse painel esteja disponível durante a próxima COP31 na Turquia em novembro, co-presidida pela Austrália.
Além das atividades do novo painel científico, mais de 400 pesquisadores apresentam recomendações sobre ações direcionadas aos ministros presentes na conferência durante esta semana. O relatório abrange sugestões tanto para políticas energéticas quanto alternativas fiscais relacionadas ao financiamento e operação dos bancos centrais.
Andrés Del Castillo, advogado sênior do Centro para Lei Internacional Ambiental (Ciel), fez uma referência literária ao afirmar: “Se conseguirmos finalizar a era dos combustíveis fósseis – incluindo petroquímicos – isso ocorrerá aqui em Macondo; onde o impossível se torna apenas outra forma de verdade.” Ele alude à fictícia vila criada por Gabriel García Márquez no romance “Cem Anos de Solidão”, situado próximo à Santa Marta.
