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Peço licença à minha colega Clara Saliba, colunista da Pública, para adentrar sua área de expertise: a economia. Embora não tenha formação específica nesta disciplina, sempre me interessei pela interseção entre desenvolvimento econômico e questões ambientais. Tive o privilégio de iniciar minha trajetória no jornalismo abordando a macroeconomia, e foi através dessa lente que percebi a conexão com as preocupações ambientais.
Atualmente, um indicador que ilustra essa conexão entre a demanda por recursos naturais e nosso dia a dia é a inflação.
Na semana passada, recebemos uma notícia positiva: em julho, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede oficialmente a inflação no Brasil, registrou um aumento acumulado de 4,4% nos últimos doze meses. Esse resultado ficou abaixo da meta anual estabelecida em 4,5%. O destaque foi ainda maior devido à deflação de 0,67% nos preços dos alimentos, algo que não acontecia desde julho de 2022.
Contudo, essa melhoria nas estatísticas não se reflete na percepção geral da população. Quando se fala sobre inflação—um parâmetro objetivo—é notável como as emoções dominam o discurso. Expressões como “O consumidor sente no bolso” são bastante comuns. Outros comentários frequentes incluem: “Os preços do supermercado estão exorbitantes” e “Não é possível comer fora frequentemente.”
Essas percepções não são meramente subjetivas ou desconectadas da realidade; pelo contrário! A inquietação em relação aos custos alimentares se fundamenta em um problema estrutural: o preço dos alimentos tem aumentado continuamente devido às guerras e aos eventos climáticos extremos. Além disso, temos testemunhado aumentos abruptos; por exemplo, em abril deste ano, o preço do feijão subiu 20% de uma só vez.
Uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas revelou que nos últimos dez anos os preços dos alimentos cresceram mais rapidamente do que a taxa média de inflação. Enquanto a alta acumulada do IPCA foi de 44% na última década, o índice para Alimentos e Bebidas alcançou um aumento de 64%.
“Não se trata apenas de uma percepção; é uma realidade. Os preços realmente estão significativamente mais elevados. Com uma diferença de 20 pontos percentuais a mais para alimentos, isso gera um impacto considerável, especialmente porque os salários são ajustados com base no IPCA,” afirmou André Braz, economista coordenador dos Índices de Preços do FGV IBRE em entrevista ao Jornal Nacional. “Se seu salário teve um ajuste médio de aproximadamente 45% nos últimos seis anos, mas suas despesas com supermercado aumentaram 65%, então as pequenas quedas nos preços dos alimentos não resolverão esse aumento.”
O fenômeno da inflação alimentar se tornou uma preocupação global. Inicialmente impulsionado pela pandemia e suas consequências nas cadeias globais de fornecimento, o problema se agravou ainda mais em 2022 com o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, impactando tanto o mercado de fertilizantes quanto o de grãos. Foi em março daquele ano—apenas um mês após o início da guerra—que o preço da soja alcançou um recorde histórico, atingindo R$ 200 por saca.
Desde então, os preços da soja permanecem elevados em relação à média histórica. Embora isso beneficie os exportadores agropecuários brasileiros, também afeta os custos das proteínas animais no país, especialmente do frango. Em termos ambientais, observamos que a expansão da produção de soja na Amazônia e na região do Matopiba (que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) tem ganhado impulso novamente; grandes players do setor têm desafiado acordos que limitavam a produção apenas às áreas não desmatadas—conhecida como moratória da soja.
Embora possa parecer um mercado distante da rotina diária das pessoas, todos lembram do recente aumento no preço do café. Em fevereiro passado, esse produto atingiu seu pico histórico. Como evidenciado no gráfico abaixo, o valor do grão já vinha crescendo desde 2020—ano marcado pela pandemia—e somente no início deste ano começou a mostrar sinais de alívio. Contudo, outro choque inflacionário surgiu com o conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã; tensões no Estreito de Ormuz provocaram um aumento nas cotações do petróleo e consequentemente nos custos dos combustíveis. Isso fez com que os preços do café voltassem a subir!
Enquanto muitos fatores para a alta dos preços alimentares estão ligados a conflitos bélicos, as questões climáticas tornaram-se uma variável essencial nesse cenário. Diversos bancos já destacam em suas análises o impacto potencial do El Niño nos próximos meses como um fator inflacionário significativo.
Na última ata do Comitê de Política Monetária do Banco Central foi mencionado que “entre os riscos associados ao cenário inflacionário e às expectativas inflacionárias estão inclusos (…) impactos secundários potenciais resultantes de choques na oferta relacionados ao petróleo e seus derivados além dos efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos energéticos.”
Uma análise realizada pelo Morgan Stanley aponta quais commodities estão sob risco ou podem representar oportunidades financeiras durante momentos críticos associados a eventos climáticos extremos. Curiosamente, segundo esse relatório, o Brasil pode se beneficiar com novas altas nos preços da soja e açúcar; isso ocorre porque regiões produtivas ao sul da América do Sul devem receber chuvas abundantes enquanto competidores asiáticos enfrentam secas neste ano. Entretanto, essa elevação nos custos alimentares pode levar o Banco Central a aumentar as taxas de juros.
Na coluna anterior, Clara elucidou claramente por que as taxas definidas pelos bancos centrais são ferramentas cruciais para controlar a inflação. Contudo, manter juros elevados pode sufocar a economia nacional e gerar endividamento tanto para indivíduos quanto para empresas; além disso, taxas mais altas tendem a desencorajar investimentos produtivos aumentando assim o desemprego.
A combinação entre inflação elevada nos alimentos e economias encolhendo diante das mudanças climáticas implica um aumento na pobreza e na fome mundial. As Nações Unidas têm alertado reiteradamente sobre essa questão: estamos diante de uma nova crise global relacionada à fome que afeta cerca de 50 milhões de pessoas diariamente sem condições básicas para se alimentar.
Diante desse cenário surge uma pergunta crítica: será suficiente apenas a política monetária do Banco Central para controlar os preços alimentares? Essa indagação foi levantada pelo gestor Nicolai Tangei—responsável pelo maior fundo soberano do mundo na Noruega—que administra US$ 1,3 trilhão em investimentos e possui grande influência no mercado financeiro. Em entrevista ao Financial Times em abril deste ano ele afirmou que “os impactos climáticos sobre produção alimentar provavelmente perdurarão por muitos anos.” Ele destacou: “Hoje é café ou azeite; amanhã pode ser batatas.” Embora pareça algo específico agora ele complementa: “com as mudanças climáticas em curso os altos preços alimentares vieram para ficar.”
