Marcas de mais de 50 espécies preservadas em sedimentos antigos na ilha de Creta podem indicar passos dados há aproximadamente 6,05 milhões de anos. Conhecidas como pegadas de Trachilos, essas marcas possuem semelhanças com a anatomia do pé humano, mas suas origens, idade e significado continuam a gerar discussões acaloradas no meio científico.
Onde foram localizadas as pegadas de Trachilos?
As pegadas foram descobertas nas proximidades da aldeia de Trachilos, situada na parte oeste da ilha grega de Creta, em uma camada sedimentar que se teria formado em um ambiente costeiro. Identificado em 2002, o achado foi oficialmente apresentado à comunidade científica através de um estudo divulgado em 2017.
A diferença entre os ossos e as pegadas é que estas últimas revelam o contato direto do pé com o solo, podendo oferecer informações sobre a locomoção dos seres que ali passaram. Assim, os cientistas examinaram o formato dos dedos, do calcanhar e da planta do pé para determinar que tipo de criatura poderia ter caminhado naquela região.
Qual a relevância da idade estimada em 6,05 milhões de anos?
Um estudo conduzido por Uwe Kirscher e publicado na revista Scientific Reports em 2021 utilizou métodos magnéticos, micropaleontológicos e estratigráficos para calcular a idade das marcas em cerca de 6,05 milhões de anos.
Se confirmada essa datagem, as pegadas seriam aproximadamente 2,4 milhões de anos mais antigas que as conhecidas trilhas de Laetoli na Tanzânia, relacionadas ao Australopithecus afarensis. Contudo, os pesquisadores reconheceram incertezas ligadas a uma parte inacessível da sequência geológica analisada.
O que o formato das pegadas pode indicar?
De acordo com Per Ahlberg, pesquisador da Universidade de Uppsala e coautor do estudo, as impressões sugerem um pé com dedão alinhado aos outros dedos, com diminuição progressiva no tamanho dos dedos laterais e uma parte anterior capaz de sustentar o corpo durante a marcha ereta.
- O dedão está paralelo aos outros dedos e não afastado como ocorre em certos primatas.
- A planta parece ser mais curta do que a observada em australopitecos posteriores.
- O arco plantar aparenta ser pouco desenvolvido e o calcanhar parece estreito.
Tais características foram interpretadas pelos pesquisadores como indícios de locomoção bípede. Entretanto, não foi possível associar diretamente essas marcas a alguma espécie específica devido à ausência de ossos que permitissem identificar quem ali passou.
Por que existem controvérsias sobre essa descoberta?
A interpretação das pegadas como pertencentes a um possível hominídeo não é amplamente aceita. Além das incertezas sobre quem deixou as marcas, outra pesquisa publicada na Scientific Reports, em 2022, contestou tanto a idade quanto as condições ambientais atribuídas ao sítio arqueológico.
Liderado por Willem Jan Zachariasse, esse estudo sugere que os sedimentos podem pertencer ao Plioceno Superior e ter aproximadamente 3 milhões de anos. Essa variação demonstra que ainda é necessário esclarecer a disposição das camadas geológicas, bem como os microfósseis e a antiga geografia de Creta.
A descoberta pode alterar a narrativa sobre a evolução humana?
Caso se confirme tanto a datagem mais antiga quanto uma origem hominínea para as pegadas, Trachilos poderá enriquecer o debate sobre quando e onde surgiram pés adaptados à locomoção bípede. Os autores também mencionam uma possível conexão com o controverso Graecopithecus freybergi, cujos fósseis foram encontrados no Mediterrâneo oriental.
No entanto, por ora é mais prudente classificar essas marcas como pegadas semelhantes às humanas, evitando considerá-las como prova definitiva da presença dos primeiros humanos. É essencial acompanhar novas análises futuras pois cada camada revisitada pode fortalecer ou modificar completamente essa narrativa gravada na rocha.
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