Medo da transformação supera o temor pelas mudanças climáticas, afirma Ana Toni

No final de abril, a cidade de Santa Marta, na Colômbia, sediou a Primeira Conferência para a Transição Longe dos Combustíveis Fósseis, marcando o início de um ciclo de debates que pode impulsionar os esforços globais em direção à transição energética.

A economista Ana Toni, que atua como diretora-executiva da COP30, a 30ª Conferência do Clima da ONU, compartilhou suas reflexões com a Agência Pública após o encerramento deste encontro significativo. Esta conferência foi a primeira vez que um grupo de países se reuniu especificamente para abordar o uso excessivo de carvão, petróleo e gás natural, considerado a principal causa do aquecimento global em mais de três décadas de discussões climáticas.

Após uma tentativa sem sucesso na COP30 realizada em Belém para avançar nessa questão — que é formalmente discutida entre os quase 200 países signatários da Convenção do Clima da ONU — o encontro na Colômbia surgiu como uma alternativa para debater o tema com maior liberdade. Sem as limitações típicas das negociações formais, quase 60 países participaram dispostos a tratar do assunto de maneira mais prática.

“No que diz respeito à transição energética, não conseguimos criar um ambiente propício para compartilhar experiências sobre as dificuldades enfrentadas por cada país nessa jornada. Questões como espaço fiscal e transição justa não foram suficientemente debatidas”, declarou Toni à Pública. “Aqui [em Santa Marta], estamos realmente colocando a mão na massa. É incrível ter a oportunidade de discutir esses tópicos; nosso foco é aprender uns com os outros.”

Os debates abordaram os obstáculos e desafios nas esferas fiscal, financeira, social e política, além das questões energéticas. O enfoque foi dialogar sobre como tornar viável uma decisão já tomada na COP28 em Dubai, que estipulou a necessidade de uma “transição ordenada, justa e equitativa” longe dos combustíveis fósseis para limitar o aquecimento global a 1,5 °C.

Toni acredita que as discussões não progrediram na COP30 devido à falta de maturidade no debate, mas ressaltou que o conflito no Irã trouxe uma nova urgência ao tema. “A guerra evidenciou algo que sempre soubemos: a transição dos combustíveis fósseis vai além da questão climática. Trata-se também de geopolítica e economia”, comentou. “Agora está claro para todos que este assunto é multifacetado.”

Durante a conferência, Toni ouviu uma frase que sintetiza bem essa complexidade: “As pessoas têm mais medo da mudança do que da mudança climática.” Para ela, isso demonstra como o temor da inação climática não oferece segurança às pessoas. O foco agora deve ser garantir que nessa transição elas continuem tendo acesso à energia e empregos enquanto experimentam melhorias nas condições de vida com menos poluição e desigualdade.

Os diálogos gerados em Santa Marta serão utilizados como insumos para outra iniciativa relacionada às negociações climáticas formais – um esforço promovido pela presidência da COP30 para elaborar um roteiro global rumo ao fim dos combustíveis fósseis.

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da conferência, se comprometeu a realizar um estudo paralelo para ouvir diversas partes interessadas e desenvolver diretrizes que ajudem as nações na criação de seus próprios mapas de caminho.

A seguir está uma entrevista com Ana Toni.

Entrevista com Ana Toni

Qual é a importância deste espaço para discutir os combustíveis fósseis?

A experiência está sendo muito enriquecedora. Observamos que ainda não estabelecemos um ambiente confiável para explorar as vivências dos países nesse processo de transição — suas dificuldades financeiras e sociais. Poder debater essas questões abertamente tem sido ótimo.

Você mencionou durante sua apresentação que Santa Marta não é um local de conflito.

Exatamente! Aqui não precisamos convencer uns aos outros; buscamos aprender genuinamente. Esse ambiente colaborativo tem sido extremamente produtivo. A energia é positiva e aberta; aqui não há peso das negociações formais.

Acredita que isso pode resultar em ações práticas? Isso alimentaria as negociações climáticas formais?

Eu vejo isso principalmente como uma ação prática dentro dos próprios países, onde estão as realidades vividas e onde as contribuições nacionalmente determinadas (NDCs) estão sendo implementadas. Se houver uma aplicação desse conhecimento nas COPs futuras, será bem-vindo.

Pensa que isso traz benefícios em relação às COPs? Muitas pessoas expressaram frustração quanto ao progresso dessas conferências.

Não considero isso uma reação às COPs; trata-se de um movimento autêntico de países buscando avançar nesse tema específico. As COPs são focadas em negociações detalhadas. Um participante mencionou que podemos avançar internacionalmente quando sabemos claramente o que queremos fora dessas negociações.

Isso poderia amadurecer o debate nas próximas COPs?

Com certeza ajudará bastante! Nas COPs anteriores as pessoas costumam ter uma mentalidade voltada à negociação e não estão abertas ao diálogo profundo. Aqui essa pressão não existe.

Muitos defendem a ideia de um tratado específico sobre a eliminação dos combustíveis fósseis. Você vê espaço para isso hoje?

Não vejo dessa forma. O foco deve ser fortalecer o sistema multilateral existente; isso nos trouxe até aqui. O Acordo de Paris tem apenas 10 anos, tempo insuficiente para abandoná-lo por completo. Embora ainda haja muito trabalho pela frente, há vontade coletiva neste sentido.

A Conferência em Santa Marta está sendo considerada histórica por todas essas razões mencionadas aqui; no entanto, não há compromissos oficiais devido à natureza do evento. O tempo é um fator crítico?

Existem questões cujas soluções exigem tempo; estamos lidando com legados construídos ao longo de dois séculos.

Poderíamos levar 200 anos para fazer essa mudança?

Certainmente espero que não! Este foi apenas o primeiro encontro; espero ver mais países participando das próximas edições. É crucial envolver todos nesse diálogo global; eventos recentes podem acelerar essa transição energética no médio e longo prazo.

A guerra no Irã poderá impulsionar essa transição energética?

A guerra demonstrou claramente — algo já sabíamos — que essa transição nunca se limitou apenas à questão climática; agora muitos reconhecem isso sob diferentes ângulos.

E se fosse apenas sobre clima? Alguns poderiam achar que estariam seguros por serem mais ricos ou desenvolvidos.

Uma frase impactante foi dita aqui: “As pessoas têm mais medo da mudança do que da mudança climática.” Essa percepção revela como estamos usando o argumento do medo inadequadamente; precisamos focar em oferecer segurança às pessoas durante essa transição.

A Conferência em Santa Marta representa uma nova fase nesse debate sobre combustíveis fósseis e mudanças climáticas…

Muitas questões demandam tempo e reflexão cuidadosa; esse processo levou séculos para se desenvolver.

E quanto tempo levará até conseguirmos mudar?

Nossa expectativa é reduzir esse tempo significativamente! Este evento inaugural deve abrir portas para novas conversas globais envolvendo todos os interessados na questão energética mundial.

By Brasilia Hoje

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